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ACADEMIA BRASILEIRA
DE HISTÓRIA E LITERATURA
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Artigos Acadêmicos21 de julho de 2026

O OFÍCIO DE ESCREVER

Marcelo de Carvalho Ribeiro

A escrita, no meu entender, é algo sagrado. Sim, pois é por meio da escrita que os seres humanos criam ordem no caos. Digo isso, pois a escrita e, por consequência, a transmissão de conhecimento que ela proporciona transcendem, levando a informação e o conhecimento através das gerações, ao longo dos séculos. Jamais a humanidade teria chegado aonde chegou sem a palavra escrita, sem a qual estaríamos condenados a andar em círculos, sem um mínimo de avanço no campo civilizacional.

 

A propósito, foi o advento da escrita que alavancou a coletividade humana em um salto evolutivo, pois foi por meio dele que os homens deixaram para trás a pré-história e deram início à História da humanidade, registrando os fatos mais importantes ocorridos em cada civilização da Antiguidade.

 

Os escritores, os historiadores, os poetas e os filósofos, pela força e importância de suas palavras escritas, criaram — e criam — ordem no caos da vida humana, ajudando a dar significado à existência e entendimento aos homens. Eles foram — e são — os faróis da humanidade, pois todo o conhecimento acumulado ao longo das gerações, desde as mais recuadas eras, foi preservado e chegou até nós unicamente por meio da escrita. Por isso, ela é sagrada.

 

A escrita é a forma mais eficaz de registro e transmissão do conhecimento. Por esse motivo, acredito que os escritores, historiadores, poetas e filósofos, ainda que não saibam, guardam em seu íntimo o desejo de deixar sua contribuição intelectual ao mundo. Nesse sentido, todo esforço é válido, uma vez que a escrita sempre edifica e educa, pois todo escrito é resultado da expressão do conhecimento — seja ele qual for.

 

A humanidade precisa se dar conta da importância sagrada da literatura, da história, da poesia e da filosofia. Precisa, além disso, dar o devido valor ao conhecimento, alicerce principal para a construção de qualquer civilização, seja no passado, no presente ou, mais importante ainda, no futuro. Nesse sentido, cabe lembrar que o sagrado nem sempre possui caráter religioso ou místico. Tudo o que nos eleva e nos faz crescer — individual ou coletivamente — é sagrado.

 

Assim sendo, ao analisarmos o ofício do escritor, desde logo percebemos que esse é um dos trabalhos mais solitários do mundo. Tal como o mineiro, que precisa penetrar nas minas subterrâneas, escavando túneis e galerias e percorrendo labirintos na rocha, a dezenas ou centenas de metros abaixo da superfície, para dali extrair o valioso minério, o escritor precisa de solidão para escrever.

 

Por oportuno, cabe lembrar que todo escritor é um combatente das ideias e, como tal, precisa de silêncio, introspecção, concentração e comunhão consigo mesmo para que seus pensamentos se alinhem, permitindo que as ideias surjam e se organizem em sua mente para, depois, serem vertidas no papel por meio da escrita. Sem tais condições, o escritor não consegue produzir. Em outras palavras, escritores, historiadores, poetas e filósofos precisam de determinados períodos de isolamento do mundo para que suas ideias venham à luz, sem interrupções, intromissões inoportunas ou qualquer coisa que possa perturbá-los.

 

O ofício de escrever traz consigo a necessidade de compartilhar com a humanidade um pouco de si e de seu conhecimento. Escrever é deixar ao mundo um sinal de que ainda existe esperança. Sim, pois tudo o que é escrito — e principalmente publicado — não é feito para o “agora”, mas para o futuro, para as novas gerações, como uma marca e um sinal da época em que o escritor viveu.

 

Lamentavelmente, em nosso tempo, o festejado século XXI, os homens deixaram de lado a literatura, a história, a poesia, a filosofia e praticamente todos os campos e aspectos da cultura e da intelectualidade humana. Isso demonstra a face mais trágica da mediocridade que vigora e impera em nossa geração e que assola e empobrece a civilização, a qual passou a dedicar toda a sua admiração e a dar protagonismo apenas à ciência e à tecnologia, as senhoras consagradas deste século.

 

Entretanto, é preciso lembrar uma sutil, mas importante, lição que a História nos ensina: em qualquer civilização, o avanço científico e tecnológico, sem um crescimento intelectual e um progresso moral que lhe sejam proporcionais, acaba em degeneração social. O crescimento intelectual e o avanço moral são os alicerces que dão suporte e sustentabilidade à ciência e à tecnologia e, sem eles, qualquer sociedade marcha para o abismo. Para percebermos esse colapso, basta observarmos a sociedade ocidental na atualidade, que dá indícios sólidos do início da decadência de nossa civilização. É muito triste reconhecer isso, mas a geração atual está contribuindo sobremaneira para tal resultado, pois dá todo o crédito e toda a atenção à ciência e à tecnologia, mas se esquece daquilo que nos torna humanos: a cultura e o conhecimento, pilares de qualquer civilização.

 

Mesmo diante do cenário árido e desafiador deste tempo, em que a sociedade não valoriza a cultura, os escritores não perdem a esperança na humanidade. Continuam escrevendo. Esses intelectuais acabam fazendo da experiência de vida a matéria-prima de sua escrita.

 

Homens e mulheres de letras, cujo existir está na ponta de suas canetas e cujo sangue quase se transforma em tinta. Eles escrevem para estar vivos e estão vivos para escrever. A escrita é, para eles, tão importante quanto respirar. Escrever, então, deixa de ser um prazer, uma arte ou um ofício para se tornar uma missão. Escrever é o seu existir.

 

Essa missão dos homens de letras consiste em dar sua contribuição para a construção de um mundo melhor. Os literatos sabem que o crescimento intelectual é o único caminho capaz de impulsionar o indivíduo, em particular, e a sociedade, como um todo, em seu aprimoramento psíquico, emocional, consciencial e espiritual. Por isso, a literatura é sagrada. A literatura — e somente ela — é o principal complemento da existência. Mais do que isso, escrever não é simplesmente temperar a vida, mas, de alguma maneira, transformá-la.

 

 

Marcelo de Carvalho Ribeiro     

Membro da Academia Brasileira de História e Literatura