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ACADEMIA BRASILEIRA
DE HISTÓRIA E LITERATURA
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Artigos Acadêmicos25 de abril de 2026

Sussurros de Verão

Edleuza Ribeiro

Numa manhã de maio ainda pálida, na casa humilde da fazenda Tamburi – paredes de barro rachado pelo tempo – vivia nossa família: eu, mãe, pai e os dois irmãos. O ar cheirava a lenha fresca e terra úmida.


Mãe acendia o fogo logo cedo, preparando arroz branco soltinho e cará frito crocante, dourado como o sol nascente. Dia alegre: íamos lavar roupas na Iúma. Levantamos com os primeiros raios, marmita embrulhada, almoço adiado para o frescor do córrego.


A viagem pulsava emoção. Estrada de terra vermelha subia e descia, poeira fina dançando no vento quente, até o canto cristalino da água. Lá, o trabalho: sabão espumando nas mãos calejadas, esfregando peças com força ritmada, estendendo tudo na grama verde e macia da subida íngreme.


Sol alto queimava o céu azul. Hora do almoço: sentávamos na tábua áspera, marmita quente no colo, pés mergulhados no rio gelado que corria cantarolando. Peixinhos prateados faiscavam, bicando grãos de arroz caídos como confetes na correnteza fresca.


Depois, pescávamos com varinhas improvisadas, risos ecoando enquanto roupas secavam ao vento, brancas e leves como nuvens. Tudo enxuto, recolhíamos o dia – ir à Iúma era festa pura, um ritual de união.


No retorno, fim de tarde tingia o horizonte de dourado flamejante, estrada empoeirada colando na pele suada. Chegávamos exaustos à casa simples, mas o coração transbordava: levávamos não só roupas limpas, mas a riqueza invisível da família – sussurros de verão que o dinheiro nunca compra.


Edleuza Ribeiro Voz Amazônica

Membro da Academia Brasileira de História e Literatura