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DE HISTÓRIA E LITERATURA
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Artigos Acadêmicos29 de abril de 2026

Redescobrindo Laranjeiras: o que dizem os registros históricos

Anapuena Havena

Ao realizar pesquisas em registros paroquiais do século XIX para um estudo genealógico, encontrei o assento de óbito de Sebastião Lopes Bicas, meu 5º avô, datado de 29 de junho de 1885. Nesse registro, uma informação chamou minha atenção e mudou o rumo da pesquisa: Sebastião havia sido sepultado na Capela de Laranjeiras, "da qual foi um dos fundadores".

 

 

Nos estudos de História, é fundamental distinguir aquilo que pertence à memória daquilo que pode ser comprovado por meio de fontes. A memória guarda narrativas transmitidas ao longo do tempo, mas, por ser seletiva, pode promover apagamentos e silenciamentos. Costumo dizer que a memória pode ser um guia inicial, mas jamais deve ser tratada como prova isolada. A História, por sua vez, exige documentos e fontes verificáveis.


Aprofundando a pesquisa, reuni registros paroquiais, inventários, jornais e documentos da época, e foi então que percebi que o lugar hoje conhecido como Laranjeiras, distrito do município de Banabuiú, no Ceará, aparece nesses registros como Boqueirão de Baixo.

 

Essa identificação aparece, por exemplo, no inventário de Maria Vicência da Purificação, esposa de Sebastião Lopes Bicas, documento datado de 1867. Nele, são citadas propriedades ligadas à família, como a fazenda Boa Vista, a fazenda do Penha, terras de criar no Riacho do Penha, cercado na Timbaúba, sendo a fazenda Boqueirão de Baixo indicada como o local onde os herdeiros assinaram o documento em questão.

 

Ao analisar os registros paroquiais do século XIX, verifiquei que a capela de São Sebastião surge nos livros paroquiais a partir de 1872, apresentando variações quanto ao nome: Capela do Boqueirão de Baixo, Capela de São Sebastião do Boqueirão de Baixo e, ainda, Capela de São Sebastião da Larangeira do Boqueirão de Baixo, conforme a grafia da época. Com o passar dos anos, o nome foi se fixando como Larangeira e, posteriormente, Laranjeiras.

 

A mudança do nome não aconteceu de forma repentina. Em registros de 1876, por exemplo, ainda aparece a denominação Capella de S. Sebastião da Larangeira do Boqueirão de Baixo, indicando que a transição ocorreu de maneira gradual.


O relatório do padre Dr. Antônio Elias Saraiva Leão, de 12 de dezembro de 1873, reforça essa mudança de nome ao mencionar a capela. Assim diz o relatório:

 

“Existem nesta Freguezia sete Capelas filiaes, sendo quatro nesta Cidade, e tres em outros lugares diferentes. As existentes na cidade são de Nossa Senhora do Rosario, a do Senhor do Bonfim, a da Senhora Santa Anna, e a das Almas edificadas no Cemiterio, que fica a Oeste da Cidade na distancia de duzentas a trezentas braças; e as de fora são a Capella de Nossa Senhora da Conceição na Barra do Sitiá, a de São Sebastião no lugar onde era denominado Boqueirão, e hoje Larangeira (…).”


Esse trecho mostra, no próprio século XIX, a passagem do antigo nome para o novo.


Antes da construção da capela, os sacramentos relacionados à família Lopes Bicas — batizados e casamentos — eram realizados especialmente nas fazendas Boa Vista, Boqueirão (Buqueirão) de Baixo e Penha, e os sepultamentos da família eram realizados na Barra do Sitiá.

 

 

 

Sobre Sebastião Lopes Bicas, seu nome aparece em 1870 na relação de eleitores especiais de senadores da província do Ceará. Esse dado indica sua posição social, patrimônio e influência na região. Conforme o Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial da Província do Ceará para o ano de 1870, citado por Câmara (1970), os eleitores de senadores eram selecionados, por determinação constitucional, entre cidadãos do sexo masculino de reconhecida projeção social e econômica.


Além disso, encontrei uma informação importante no jornal Pedro II, na edição publicada em 5 de janeiro de 1872. A publicação traz uma correspondência datada de 18 de dezembro de 1871, na qual se denunciam práticas de intimidação eleitoral atribuídas ao subchefe dos progressistas (graúdos), coronel Hermenegildo Furtado de Mendonça e Menezes, incluindo ameaças, promessas políticas e tentativas de coação contra eleitores conservadores. No mesmo contexto, o jornal menciona que Hermenegildo teria prometido ao eleitor Sebastião Lopes Bicas fazer a assembleia votar a quantia de quinhentos mil réis “para a obra de uma capelinha que o Sr. Sebastião está levantando”.

 

 

 

A informação é relevante porque indica que, naquele momento, a capela ainda estava sendo construída por iniciativa do Sr. Sebastião. Além disso, como a própria correspondência afirma que Hermenegildo “mais nada conseguiu” e que suas promessas e ameaças foram repelidas, o documento sugere que Sebastião Lopes Bicas não cedeu às pressões.

 

 


O correspondente encerra, dizendo:

 

"Resta-nos a gloria de manifestar ao público que os nossos amigos cujo caracter desinteressado colloca-os acima de qualquer duvida, repellirão as promessas e ameaças do Sr. Hermenegildo com um despreso o mais franco e manifesto."

 

 

 

O assento de óbito de Sebastião Lopes Bicas também nos mostra algo interessante: ele faleceu em 1885 e foi sepultado na capela de Laranjeiras. À época, os sepultamentos no interior de templos religiosos já eram proibidos por questões sanitárias, o que torna o registro ainda mais significativo como prova de seu papel de fundador, pois a Lei Provincial n. 1.825, de 3 de setembro de 1879, em seu art. 1º, diz que:

 

"Fica concedida aquelles que, à expensas suas, edificaram ou edificarem, d'ora em diante qualquer egreja ou capella, a faculdade de serem nellas sepultados, provando com documentos que as edificaram".

Diante do exposto, é possível afirmar que Sebastião Lopes Bicas construiu a capela com recursos próprios (a expensas suas), uma vez que, em 1885, foi sepultado na própria capela e não no cemitério do povoado.

 

A reunião dessas fontes nos permite compreender melhor o processo de formação do povoado de Laranjeiras, atual distrito do município de Banabuiú, no Ceará.

A memória local preservou que o lugar teria sido chamado Poço Preto e essa denominação aparece no mapa de Théberge (1861), o que indica que o topônimo existia na região. Essa referência pode estar ligada ao ponto do rio localizado na região, importante para a passagem das boiadas, já que o território fazia parte da Estrada Nova das Boiadas. No entanto, nos registros diretamente relacionados ao território onde o povoado se formou, o nome que aparece de forma consistente é Boqueirão de Baixo, posteriormente denominado Larangeira/Laranjeiras.

 

Assim, os registros históricos permitem afirmar que o povoado hoje conhecido como Laranjeiras foi antes identificado como Boqueirão de Baixo. Além disso, evidenciam que sua capela não foi construída na década de 1850, mas na década de 1870, aparecendo nos registros paroquiais a partir de 1872, e que Sebastião Lopes Bicas é fundador da capela de São Sebastião.

 

Redescobrir a história de Laranjeiras tem, para mim, um sentido muito especial, pois é também redescobrir minhas raízes. A história desse lugar faz parte da história da minha família e de tantas outras, sendo Sebastião Lopes Bicas ancestral de muitos banabuienses.

 

Ao trazer novamente à luz o nome de Sebastião Lopes Bicas e sua importância para Laranjeiras, devolvemos à memória local um homem que estava presente nos documentos, mas que havia sido esquecido pela tradição.

 

A memória pode produzir apagamentos, mas as fontes nos ajudam a resgatar a História.

 

A pesquisa continua.

 
REFERÊNCIAS

ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO CEARÁ. Inventário de Maria Vicência da Purificação. Quixeramobim, 1867.

 

CEARÁ. Lei Provincial n. 1.825, de 3 de setembro de 1879. Facultando concessão de sepulturas em egreja ou capella às pessoas que as edificaram ou edificarem à expensas suas. Palácio da Presidência do Ceará, 1879.

 

PARÓQUIA DE SANTO ANTÔNIO (Quixeramobim, CE). Livro de batismos. Assento de batismo de Maria. 16 ago. 1857.

 

PARÓQUIA DE SANTO ANTÔNIO (Quixeramobim, CE). Livro de óbitos. Registro de óbito de Sebastião Lopes Bicas. 29 jun. 1885.

 

REGISTROS paroquiais do século XIX. Paróquia de Quixeramobim.

 

CÂMARA, José Aurélio Saraiva. Fatos e documentos do Ceará provincial. Fortaleza: Imprensa Universitária da UFC, 1970.

 

PEDRO II. Fortaleza, 5 jan. 1872. Correspondência de 18 dez. 1871.

 

PORDEUS, Ismael. Antônio Dias Ferreira e a matriz de Quixeramobim. Revista do Instituto do Ceará, Fortaleza, p. 61–74, 1956.

STUDART FILHO, Carlos. Vias de comunicação do Ceará colonial. Revista do Instituto do Ceará, Fortaleza, t. LI, 1937.

 

THÉBERGE, Pedro. Carta chorographica da Província do Ceará com divisão eclesiastica e indicação da civil judiciária até hoje. 1861. 1 mapa. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional.

 

Anapuena Havena
Historiadora/Pesquisadora/Genealogista
Presidente da Academia Brasileira de História e Literatura