
Preservar para Quê?
Karla Dornelas
Outro dia ouvi alguém dizer:
— Deixa cair. Aquilo já está velho demais. Depois fazem outro.
A frase foi dita com naturalidade. Sem maldade aparente. Sem perceber que, às vezes, uma única frase pode derrubar mais do que o tempo levou décadas para desgastar.
Fiquei pensando quantas histórias morrem antes das paredes.
Quantos casarões desaparecem não por falta de estrutura, mas por falta de significado.
Quantas igrejas, estações, praças, fotografias, documentos e objetos carregam a memória de pessoas que jamais conheceremos, mas que permitiram que estivéssemos aqui.
Vivemos uma época curiosa.
Se algo quebra, substituímos.
Se envelhece, descartamos.
Se exige cuidado, julgamos caro.
E então surge a pergunta:
— Preservar para quê?
A resposta talvez seja mais simples do que parece.
Preservamos porque a memória também é um patrimônio.
Preservamos porque uma cidade sem história é apenas um conjunto de construções.
Preservamos porque aquilo que chamamos de progresso não precisa destruir o que veio antes para existir.
Arte antiga não disputa espaço com arte moderna.
Elas dialogam.
Uma ajuda a compreender a outra.
Uma revela de onde viemos. A outra aponta para onde podemos ir.
O novo não precisa nascer sobre os escombros do passado.
Pode nascer ao lado dele.
Pode aprender com ele.
Pode respeitá-lo.
Muitas das cidades mais admiradas do mundo compreenderam isso há muito tempo. Elas preservam suas fachadas, seus monumentos, suas tradições e, ao mesmo tempo, inovam.
Não escolheram entre passado e futuro.
Escolheram construir pontes.
Talvez porque tenham entendido que conhecimento nunca ocupa espaço.
Conhecimento expande espaços.
Ele amplia horizontes.
Eleva padrões de vida.
Abre caminhos.
Permite viajar sem sair do lugar.
Naquela noite, diante de um velho portão, observando parte de uma história ruir diante dos meus olhos, percebi que não lamentava apenas pedras, madeira ou reboco.
Lamentava o desaparecimento de perguntas que jamais seriam respondidas.
Quem passou por ali?
Quem amou naquele lugar?
Quem sonhou?
Quem chorou?
Quais histórias aquelas paredes testemunharam em silêncio?
Escombros não derrubam apenas construções.
Escombros podem sepultar memórias. E memórias, quando desaparecem, não podem ser reconstruídas com cimento novo.
Continuarei defendendo a preservação.
Não porque sou contra o novo.
Mas porque acredito que o futuro se torna mais sólido quando conhece as próprias raízes.
Talvez preservar tenha perdido parte do seu significado para alguns.
Para mim, continua significando respeito.
Respeito por quem veio antes.
Responsabilidade com quem virá depois.
E amor pela história que ainda insiste em permanecer de pé, esperando apenas que alguém a enxergue.
Porque existem coisas que, uma vez perdidas, jamais poderão ser compradas novamente.
Entre elas, a memória.
Karla Dornelas
Membro da Academia Brasileira de História e Literatura


