
Petrópolis: cidade de Pedro e memória Imperial
Por Sarah Baptista

Sou moradora do estado do Rio de Janeiro, da cidade de Paraíba do Sul, um lugar que, por si só, guarda camadas profundas da memória brasileira. Terra marcada pelo ouro que desceu das montanhas e pelo café que moldou fortunas, Paraíba do Sul permanece, infelizmente, pouco lembrada e muitas vezes desconhecida até por seus próprios habitantes.
Vizinha a ela está Petrópolis, a cidade erguida na Serra da Estrela como refúgio imperial, planejada não apenas para existir, mas para representar. Criada oficialmente em 16 de março de 1843, por decreto de Dom Pedro II, Petrópolis nasceu como cidade-palácio, concebida para ser o local de veraneio da Corte brasileira, longe do calor e das epidemias da capital do Império, o Rio de Janeiro.
O coração da cidade é o Palácio Imperial, cuja construção teve início em 1845 e foi concluída em 1862. Ali viveram Dom Pedro II, sua esposa Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias, e suas filhas:
— Princesa Isabel,
— Princesa Leopoldina,
— além dos meninos Afonso e Pedro, que morreram ainda na infância.
Foi nesse palácio que se desenrolou a intimidade da família imperial brasileira, entre salões de música, tapeçarias francesas, móveis europeus e o silêncio cerimonioso do poder.
Minha primeira visita ao Museu Imperial aconteceu por volta de 1990. Eu tinha apenas quatro anos. O que mais me fascinava não era a coroa, embora ela estivesse lá, exposta atrás do vidro, cercada por joias da família real , mas as pantufas que calçávamos sobre os sapatos para não riscar o assoalho de madeira nobre.
Aquilo, para mim, era quase um ritual de passagem. Caminhar de pantufas era atravessar o tempo com cuidado.
Os móveis, a tapeçaria, as cortinas pesadas, a sala de música, as carruagens, tudo me transportava para uma realidade de contos de fadas. E foi ali, ainda tão pequena, que nasceu uma paixão silenciosa e duradoura pela História.
Mas Petrópolis vai muito além do Museu Imperial.
Na adolescência, retornei à cidade muitas vezes. Minha irmã, então universitária em Petrópolis, trabalhou como guia turística. Foi ela quem me apresentou a cidade com paciência, estudo e profundidade, não mais como cenário encantado, mas como território histórico.
Visitamos o Palácio Rio Negro, localizado na Avenida Koeler, construído em 1889 pelo barão do café Manoel Gomes de Mattos. O palácio foi residência de verão de diversos presidentes da República quando o Rio de Janeiro ainda era capital do país. Ali estiveram Rodrigues Alves, Hermes da Fonseca, Getúlio Vargas, entre outros. O Palácio Rio Negro permanece como testemunha silenciosa dos bastidores do poder republicano, guardando documentos, móveis e memórias de um Brasil que transitava entre Império e República.
Foi também nessa fase que visitei a Casa de Santos Dumont, construída em 1918. Pequena, engenhosa, absolutamente genial. Uma casa pensada em cada detalhe: a escada que só se sobe começando com o pé direito, o chuveiro de água quente, os móveis que se transformam, o telescópio no alto do telhado. além é claro do acervo dos projetos e protótipos de seus aviões e máquinas.
Ali compreendi que Santos Dumont, nosso patrono da aviação, era um homem prático, inteligente, sensível e, de certa forma, simples. Sua genialidade não gritava; ela resolvia.
Petrópolis continuava a se revelar.
A cidade é um livro aberto de arquitetura e memória: a Catedral de São Pedro de Alcântara, em estilo neogótico, iniciada em 1884 e concluída apenas em 1925, onde repousam os restos mortais de Dom Pedro II, Teresa Cristina, Princesa Isabel e o Conde d’Eu; a Casa de Rui Barbosa, adquirida por ele em 1893, hoje museu dedicado a um dos maiores intelectuais brasileiros; o Palácio de Cristal, inaugurado em 1884, símbolo das exposições e da sociabilidade imperial; e o Quitandinha, inaugurado em 1944, concebido como hotel-cassino de luxo, hoje espaço de exposições e memória cultural.
Pedro não ficou apenas no nome. Petrópolis é, até hoje, uma cidade nobre, não no sentido aristocrático vazio, mas na dignidade de quem preserva o passado em meio à serra. Suas ruas homenageiam o imperador, a imperatriz, ministros, barões, intelectuais. Cada esquina guarda uma curiosidade, uma história, um vestígio.
Hoje, mulher feita, caminho por essas alamedas com a mesma reverência daquela criança de pantufas, principalmente pelos jardins que adornam a entrada do museu imperial. A diferença é que agora sei os nomes, as datas, os silêncios e as contradições. Sei que a História não é um conto de fadas, mas continua sendo profundamente encantadora.
E Paraíba do Sul…
Ah, Paraíba do Sul merece seu próprio tempo, seu próprio fôlego, sua própria escuta.
Eu lhes conto em um próximo artigo.
Sarah Baptista
Membro Acadêmica ABHL
