
Pedro de Souza Carvalho: Memória, Raízes e Contribuição para a História Local
Sarah Baptista
No desenvolvimento da Etapa 3 do Ciclo de Estudos Memória e Herança, fui convidada a olhar para minha própria história familiar não apenas como um conjunto de nomes e datas, mas como um tecido vivo que se entrelaça com a história do lugar onde vivo e, de forma mais ampla, com a história do Brasil. Ao percorrer minhas raízes, escolhi situar, no tempo e no espaço, a trajetória do meu bisavô, Pedro de Souza Carvalho, figura marcante cuja vida ultrapassa os limites da memória familiar e alcança a história comunitária da região de Paraíba do Sul.
Pedro de Souza Carvalho nasceu em Minas Gerais, por volta de 1910, em um período em que o Brasil ainda vivia intensas transformações sociais e econômicas, especialmente nas áreas rurais. Ainda jovem, no final da adolescência, migrou para o interior do estado do Rio de Janeiro, estabelecendo-se na zona rural de Paraíba do Sul, onde já possuía familiares. Esse deslocamento, comum à época, revela não apenas uma busca por melhores condições de vida, mas também o movimento de formação e ocupação de territórios que caracterizou grande parte da história brasileira no século XX.
Foi nessa nova terra que meu bisavô construiu sua vida. Casou-se com Celeste da Costa Carvalho e formou uma numerosa família com 13 filhos. Entre eles, está Adolpho da Costa Carvalho, meu avô materno, que representa a continuidade direta dessa linhagem. A partir desse núcleo familiar, o sobrenome Carvalho se expandiu e se enraizou profundamente na região, tornando-se, até hoje, reconhecido e presente em diversas gerações.
Mais do que constituir uma família, Pedro também edificou sua trajetória como trabalhador e empreendedor rural. Estabeleceu-se como agricultor e pecuarista, adquirindo terras na região de Sebollas e dos Macacos. Sua atuação foi marcada pela diversidade de atividades, incluindo o cultivo e a comercialização de produtos agrícolas, a produção e venda de laticínios e até mesmo a manutenção de uma padaria na cidade. Essas iniciativas não apenas garantiam o sustento da família, mas também contribuíam diretamente para o abastecimento e desenvolvimento econômico local.
No entanto, ao revisitar sua história, o que mais se destaca não é apenas sua capacidade de trabalho, mas sua presença humana e comunitária. Conhecido como “Pedro da Guarda”, devido ao curral localizado à beira da estrada — ponto de parada para moradores da região —, ele se tornou uma referência local. Em uma época em que o acesso a recursos era limitado, especialmente na zona rural, meu bisavô desempenhava um papel essencial no apoio aos vizinhos. Era o único na região a possuir uma caminhonete, e com ela ajudava no transporte para compras mensais no centro da cidade e, sobretudo, em situações de urgência hospitalar. Sua atitude solidária, seu carisma, sua honestidade e sua disposição em servir ao outro marcaram profundamente a memória coletiva da comunidade.
Pedro também se posicionava como alguém que buscava melhorias para a vida no campo, lutando por mais reconhecimento das áreas rurais e por melhores condições de acesso aos serviços da cidade. Sua atuação, ainda que não formalizada em cargos públicos, revela uma liderança natural, baseada no exemplo e no compromisso com o bem-estar coletivo.
Sua vida foi interrompida de forma trágica em 1974, em um acidente com sua própria caminhonete, causando grande comoção na região. Sua morte não representou apenas a perda de um chefe de família, mas de uma figura essencial para a dinâmica comunitária local. Como forma de reconhecimento por sua contribuição, o governo municipal prestou-lhe homenagem ao nomear uma escola rural com seu nome, perpetuando sua memória para além das gerações que o conheceram.
Mesmo após sua partida, seu legado permanece vivo. O antigo curral, conhecido como “A Guarda”, ainda é administrado por um de seus netos e continua sendo uma referência na região. Seus filhos se estabeleceram na cidade, e a família Carvalho segue numerosa, com múltiplas ramificações, mantendo viva uma história que começou com coragem, trabalho e união.
Ao escrever sobre meu bisavô, percebo que este estudo vai além de um resgate histórico. Trata-se de um reencontro com minhas próprias raízes, com valores que ainda ecoam na forma como compreendo o mundo e me posiciono nele. Como bisneta de Pedro de Souza Carvalho, sinto orgulho de pertencer a uma família reconhecida por seu altruísmo, sua honestidade e seu compromisso com a coletividade. Essa herança, mais do que biológica, é ética e afetiva.
Assim, ao situar meu bisavô no tempo e no espaço, compreendo que sua história não está isolada. Ela faz parte de um processo maior de construção social, de formação das comunidades rurais brasileiras e de fortalecimento dos laços humanos que sustentam uma sociedade. Reconhecer isso é, também, reconhecer a importância da memória como ferramenta de identidade e pertencimento.
Sarah Carvalho Baptista
Membro da Academia Brasileira de História e Literatura


