
Os Verdadeiros Descobridores da América
Leôncio de Aguiar
Quando temos, em mente, grandes descobridores (como Cristóvão Colombo, Vasco da Gama, Ponce de León, Pedro Álvares Cabral, Vasco Balboa, Bartolomeu Dias e outros), normalmente projetamos um único homem comandando esquadras, nos vários dos mais grandiosos momentos da história. Mas, também, há não apenas solitários líderes, mas famílias inteiras que carregam, nos seus destinos, o DNA do descobrimento, e em momentos bem mais discretos. Falo a respeito dos guerreiros vikings Eric, "O Vermelho", e de Leiff Ericsson, seu filho.
Noruega, segunda metade do século X. Um homem, provavelmente de cabelos e barbas ruivas (daí o codinome, "O Vermelho"), fez parte de um povo guerreiro que vinha, há algumas centenas de anos, pressionando a Europa mais ao sul, e, desta forma, ajudou a alterar o mapa político do continente, com o permanente saqueio que fez reinos e feudos ampliarem-se ou retrocederem. Eric era seu nome. Não contente em jorrar sua natureza belicosa sobre os vizinhos do sul, matou um compatriota e, como castigo, foi exilado da Noruega.
Eric teve a oportunidade, compulsória, de exercer seus dons de comando numa embarcação sem destino certo, no norte do Oceano Atlântico. Num casual dia, avistou uma ilha não antes mapeada, que hoje conhecemos como Islândia. Considerou-a tão perfeita que, clandestinamente, retornou à Noruega e recrutou pessoas a, no novo lar, formarem uma pequena comunidade. Reconstruiu sua vida, vivendo com a família num modo de vida subsistente. Só que cometeu o mesmo erro ao matar uma segunda pessoa, amargando, por isso, novo exílio.
Novamente a navegar pelas águas frias do Atlântico Norte, foi, também, o descobridor de uma segunda, e muito maior ilha: a Groenlândia. Lá, com seus apoiadores, sonhou em fundar seu próprio reino, dando vazão aos Assentamentos Oeste e Leste. De lá, faziam trocas com a Europa continental, num corpo social que, em termos de organização, disciplina e igualdade, faria frente às sociedades escandinavas dos dias atuais (Noruega, Islândia, Dinamarca, Suécia e Finlândia). Talvez, por tamanha perfeição, seu filho Leiff não estivesse satisfeito. Por isso, navegou mais ao oeste, rumo ao desconhecido.
Ao local de chegada, na costa leste da América do Norte, deu o nome de Vinlândia. Hoje, sabemos ser a região de Terra Nova, no Canadá, onde estabeleceu contatos inicialmente amistosos com os povos autóctones locais, fomentando à construção de uma vila. Retornou à Groenlândia e, como seu pai fizera quando do primeiro exílio, convenceu pessoas a com ele emigrarem. Num desses deslocamentos, soube que o pai Eric, "O Vermelho", havia falecido. Não mais retornou a Vinlândia, onde, posteriormente, se sucederam guerras entre os nativos e imigrantes.
A história de Eric é muito bem tratada na "Saga dos Groenlandeses", um tipo de literatura muito parecido ao das sagas islandesas, por suas características bucólicas, de heroísmo e de incomparável coragem. E, embora a chegada de Leiff Ericsson tenha se dado no que seria o Canadá, em 1964 o Presidente dos EUA, Lyndon Johnson, estabeleceu o dia de Eric (e, aqui vale uma ironia, talvez tenha feito isso porque já tivesse a perspicácia de imaginar que, décadas mais tarde, algum de seus sucessores fosse querer anexar aquele país, bem como a própria Groenlândia, também pertencente ao continente).
Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho
Membro da Academia Brasileira de História e Literatura


