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ACADEMIA BRASILEIRA
DE HISTÓRIA E LITERATURA
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Artigos Acadêmicos16 de março de 2026

Os Verdadeiros Descobridores da América

Leôncio de Aguiar

Quando temos, em mente, grandes descobridores (como Cristóvão Colombo, Vasco da Gama, Ponce de León, Pedro Álvares Cabral, Vasco Balboa, Bartolomeu Dias e outros), normalmente projetamos um único homem comandando esquadras, nos vários dos mais grandiosos momentos da história. Mas, também, há não apenas solitários líderes, mas famílias inteiras que carregam, nos seus destinos, o DNA do descobrimento, e em momentos bem mais discretos. Falo a respeito dos guerreiros vikings Eric, "O Vermelho", e de Leiff Ericsson, seu filho.

 

Noruega, segunda metade do século X. Um homem, provavelmente de cabelos e barbas ruivas (daí o codinome, "O Vermelho"), fez parte de um povo guerreiro que vinha, há algumas centenas de anos, pressionando a Europa mais ao sul, e, desta forma, ajudou a alterar o mapa político do continente, com o permanente saqueio que fez reinos e feudos ampliarem-se ou retrocederem. Eric era seu nome. Não contente em jorrar sua natureza belicosa sobre os vizinhos do sul, matou um compatriota e, como castigo, foi exilado da Noruega.

 

Eric teve a oportunidade, compulsória, de exercer seus dons de comando numa embarcação sem destino certo, no norte do Oceano Atlântico. Num casual dia, avistou uma ilha não antes mapeada, que hoje conhecemos como Islândia. Considerou-a tão perfeita que, clandestinamente, retornou à Noruega e recrutou pessoas a, no novo lar, formarem uma pequena comunidade. Reconstruiu sua vida, vivendo com a família num modo de vida subsistente. Só que cometeu o mesmo erro ao matar uma segunda pessoa, amargando, por isso, novo exílio.

 

Novamente a navegar pelas águas frias do Atlântico Norte, foi, também, o descobridor de uma segunda, e muito maior ilha: a Groenlândia. Lá, com seus apoiadores, sonhou em fundar seu próprio reino, dando vazão aos Assentamentos Oeste e Leste. De lá, faziam trocas com a Europa continental, num corpo social que, em termos de organização, disciplina e igualdade, faria frente às sociedades escandinavas dos dias atuais (Noruega, Islândia, Dinamarca, Suécia e Finlândia). Talvez, por tamanha perfeição, seu filho Leiff não estivesse satisfeito. Por isso, navegou mais ao oeste, rumo ao desconhecido.

 

Ao local de chegada, na costa leste da América do Norte, deu o nome de Vinlândia. Hoje, sabemos ser a região de Terra Nova, no Canadá, onde estabeleceu contatos inicialmente amistosos com os povos autóctones locais, fomentando à construção de uma vila. Retornou à Groenlândia e, como seu pai fizera quando do primeiro exílio, convenceu pessoas a com ele emigrarem. Num desses deslocamentos, soube que o pai Eric, "O Vermelho", havia falecido. Não mais retornou a Vinlândia, onde, posteriormente, se sucederam guerras entre os nativos e imigrantes.

 

A história de Eric é muito bem tratada na "Saga dos Groenlandeses", um tipo de literatura muito parecido ao das sagas islandesas, por suas características bucólicas, de heroísmo e de incomparável coragem. E, embora a chegada de Leiff Ericsson tenha se dado no que seria o Canadá, em 1964 o Presidente dos EUA, Lyndon Johnson, estabeleceu o dia de Eric (e, aqui vale uma ironia, talvez tenha feito isso porque já tivesse a perspicácia de imaginar que, décadas mais tarde, algum de seus sucessores fosse querer anexar aquele país, bem como a própria Groenlândia, também pertencente ao continente).

 

 

Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho

Membro da Academia Brasileira de História e Literatura