
O Grandioso Império do Meio
Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho
A classificação de um, ou de vários assentamentos, como uma grande civilização se dá mais pela influência exercida fora do que no interior de suas fronteiras. No caso da China, temos essa dupla combinação, com o hoje terceiro maior território do planeta, a segunda mais ampla população e a iminência da assunção, nas próximas décadas, do posto de primeira economia mundial. Mas, para que tanto fosse possível, necessários se fizeram muitos séculos de experiência.
A primeira dinastia chinesa foi a Xia. É considerada, por muitos, mais mitológica, sem vestígios arqueológicos que a provem, dado que sua extinção teria se dado por volta do III Milênio a.C. Após seu desaparecimento, há o ápice da dinastia Shang, cujas provas materiais são a, então, existente técnica de metalurgia em bronze. Deu-se, ali, o primeiro de todos os saltos tecnológicos da China.
Com o fim da dinastia Shang, houve o início da que seria a mais longa de todas as linhagens governantes do "Império do Meio": Os Zhou. Naquela ocasião, teve início o "Mandato do Céu", cuja existência foi o instinto moral justificador do poder político, incluindo todos os futuros imperadores, num marco apoiado por filósofos como Lao-Tsé e Confúcio, embora este último raramente dissertasse sobre questões metafísicas.
Durante esta dinastia também foi escrito o clássico militar "A Arte da Guerra", de Sun Tzu. Pode, sim, não ser coincidência o fato de "A Arte da Guerra" ter sido publicado durante a dinastia Zhou, com os respectivos governantes defendendo-se, em sucesso, dos Estados guerreiros vizinhos, até a ascenção dos Qin.
Com os Qin, ascendeu ao trono o primeiro imperador chinês, Shi Huang Qin, e foram, artisticamente, feitos os exércitos de terracota e construída, de início, a Grande Muralha, cuja função era conter as invasões mongóis, procedentes do norte. Também se unificou a escrita. A completar esta glorificação, os sucederam os integrantes da dinastia Han, estabelecedores da rota da seda, essencial ao desenvolvimento de um império que já possuía o confucionismo como doutrina estatal oficial.
Com a deposição dos Han, iniciou-se a época dos Três Reinos, de rivalidade e guerra civil entre os pretendentes ao trono, que culminou no fato de que o seguinte ocupante do trono fosse um integrante da dinastia Jin, unificadora após as referidas décadas de discórdia. Não obstante tal virtude, os Jin foram violentamente varridos pelas dinastias do Norte e do Sul, causadoras de ulterior desordem, que só veio a cessar com os Song, diretivos de geral unificação e preparadores da posterior era de prosperidade, que seu ápice atingiu com a dinastia Tang: uma época de ouro política, artística, militar e científica.
Mas os Tang, na sua sapiência administrativa, não foram suficientes a, em um tão longo prazo, pacificar os espíritos políticos rivalizadores. Tanto que os depuseram a guerra civil das Cinco Dinastias, às quais se seguiram os governantes Yuan, de ascendência mongol e competentes o suficiente a um novo período dourado estabelecer, com várias invenções científicas e numa atmosfera de tolerância política e religiosa.
Por fim, a penúltima dinastia a ocupar o poder foram os Ming, continuadores da construção da Grande Muralha e originais realizadores da Cidade Proibida, ao cabo que o último imperador Quing fora derrubado, em 1912, pela Revolução Xinhai, cujo objetivo era a imposição da forma republicana de governo, em razão da logo anterior Primeira Guerra Sino-Japonesa, e da consequente Rebelião dos Boxers.
A grandiosidade da história da China é proporcional à sua posição atual. E, se descendentes tivermos no ocaso da grande humanidade, terão eles, com certeza, no "império do meio" um referencial a seguir, de modo a reerguer a nossa civilização.
Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho
Membro da Academia Brasileira de História e Literatura


