
Laranjeiras: história, memória e resgate de um fundador da Capela de São Sebastião
Anapuena Havena
A história de Laranjeiras, distrito do município de Banabuiú, insere-se no processo de ocupação dos sertões do Ceará, marcado pela concessão de sesmarias, pela criação de gado e pela fixação de famílias em terras banhadas por rios e riachos da região, tão importantes para a vida no sertão. Em geral, esses núcleos familiares se formavam em regiões onde a presença da água favorecia a criação de gado, o cultivo e a moradia. Laranjeiras nasceu nesse contexto, em estreita ligação com o rio, fundamental para a permanência das famílias na região ao longo das gerações.
A igreja local, conhecida historicamente como Capela de São Sebastião, foi construída por volta de 1852. Conforme informação que recentemente localizei no livro de óbitos da Igreja Católica, um de seus fundadores foi Sebastião Lopes Bicas, sepultado no interior da própria igreja.
Em janeiro, tradicionalmente, ocorrem na comunidade os festejos de São Sebastião, seu santo padroeiro. As celebrações são marcadas por dez dias de novenas e missas, além de leilão, cavalgada e da Copa São Sebastião, constituindo uma importante expressão da tradição religiosa e cultural da região.
A formação histórica de Laranjeiras
Laranjeiras, que em tempos antigos também foi denominada Poço Preto, teve uma trajetória administrativa bastante conturbada. Desenvolveu-se como povoado e tornou-se distrito em 1899, então pertencente ao município de Quixeramobim, e alcançou tamanha relevância que, nas primeiras décadas do século XX, chegou à condição de município autônomo, por força das leis estaduais de 1918 e 1919. Essa autonomia, contudo, não perdurou: em 1926, o município de Laranjeiras foi extinto e seu território foi incorporado ao município de Quixadá.
Em 1943, o distrito recebeu o nome de Banabuiú, denominação que mais tarde daria origem ao município de Banabuiú, criado em 1988.
Vale registrar que houve ainda uma tentativa posterior de criação municipal. A Lei estadual nº 6.709, de 21 de outubro de 1963, previu o município de Laranjeiras do Norte, a ser formado pelo desmembramento dos distritos de Banabuiú, Sitiá e Rinaré, então pertencentes ao município de Quixadá. A nova unidade administrativa, contudo, não chegou a ser instalada, sendo posteriormente extinta pela Lei nº 8.339, de 14 de dezembro de 1965, antes de sua efetiva organização político-administrativa.
Ainda assim, a comunidade de Laranjeiras preservou seu nome e identidade, sendo hoje distrito do município de Banabuiú e, portanto, mais antigo que a própria cidade que o abriga.
Em artigo publicado em 1914 pelo Instituto do Ceará, Eusébio Nery Alves de Souza descreve o lugar como “um dos povoados mais florescentes do município de Quixeramobim, situado a 84 quilômetros ao norte da cidade, possuindo escola pública, capela, aproximadamente 40 casas de regular edificação, comércio sofrível e distrito policial”. Tal registro evidencia a relevância do povoado no início do século XX e confirma sua importância na história da região.
A família Lopes Bicas
Nesse contexto de formação histórica e permanência no território, destaca-se a família Lopes Bicas e sua descendência, da qual se originou o ramo dos Lopes Pimenta. Suas raízes remontam a Portugal.
Francisco Lopes Bicas era natural de Estremoz, distrito de Évora, na região do Alentejo, em Portugal. Emigrou para o Ceará, onde se casou com Magdalena Maria do Espírito Santo, natural da freguesia de Quixeramobim e filha do sargento-mor José Pimenta de Aguiar, natural da freguesia de Santiago de Soutelo de Aguiar, Vila Pouca de Aguiar, Portugal, e de Vicência Gomes Barreto, natural da freguesia Nossa Senhora do Rosário das Russas. Alguns de seus filhos fixaram-se na região de Laranjeiras, onde deram origem a diversos ramos familiares, promovendo o enraizamento da família no território.
Francisco Lopes Bicas e Magdalena Maria casaram-se em 21 de setembro de 1789, na Capela de Nossa Senhora da Conceição, na Barra do Sitiá. Francisco faleceu em 20 de agosto de 1824, aos 60 anos de idade, sendo sepultado em mortalha branca na igreja da Barra do Sitiá. Um de seus filhos foi Sebastião Lopes Bicas, que viveu na Fazenda Boa Vista e descendia, por via materna, de uma das primeiras famílias a ocupar a região do sertão cearense.
A literatura genealógica até agora publicada não citava Sebastião como filho de Francisco Lopes Bicas e Magdalena Maria. Contudo, ao localizar o assento de batismo de Sebastião Lopes Bicas, pude confirmar essa filiação.
Conforme registro encontrado no livro de batismos da Igreja Católica, Sebastião foi batizado em 20 de maio de 1810, na Fazenda Logrador, pelo padre Inácio Raimundo de Freitas. Segue a transcrição do assento:
“Aos vinte de Maio de mil oitocentos e dez, na fazenda Logrador, em desobriga, o Padre Ignacio Raymundo de Freitas, baptizou, e pôs os Santos Oleos, o parvulo Sebastião, filho legitimo de Francisco Lopes Bicas, natural do Alentejo, e Maria Magdalena, natural desta freguesia, e nella moradores; forão padrinhos Manuel Antonio Rodrigues Machado, casado, e Maria José, solteira: de que fiz este termo para constar, em que assinei.”
Antes da construção da Capela de Laranjeiras, por volta de 1852, os membros dessa família casavam-se e batizavam seus filhos nas fazendas da região, notadamente na Fazenda Penha e na Fazenda Boa Vista, o que atesta o enraizamento do grupo familiar no território desde tempos anteriores à própria fundação da igreja local. A Fazenda Penha, em particular, aparece nos registros de batismo da família desde pelo menos 1816.
Sebastião Lopes Bicas casou-se com Maria Vicência da Purificação, com quem teve vários filhos. Entre os diversos ramos familiares originados dessa descendência, menciona-se aqui apenas aquele do qual descende a autora deste artigo.
O registro de óbito de Sebastião informa que ele foi um dos fundadores da Capela de São Sebastião, como se pode conferir na transcrição abaixo:
“Aos vinte e nove de junho de mil oitocentos e oitenta e cinco faleceu de vida presente Sebastião Lopes Bicas, viúvo de Maria Vicência da Purificação, com idade de setenta e seis annos e no dia seguinte foi sepultado na Capela de Laranjeiras, da qual foi um dos fundadores. E para constar fiz este assento, que assigno. O Vigário Salviano Pinto Brandão”.
Entre seus filhos estava Maria Magdalena dos Prazeres, que se casou com José Lopes Biccas.
Dessa união nasceu Sebastião Lopes Pimenta, que, aos 25 anos, casou-se com Joanna Maria da Trindade, em 17 de janeiro de 1900, pela manhã, na Capela de Laranjeiras. Joanna Maria da Trindade tinha, à época do casamento, 21 anos de idade e era filha de Miguel Alves de Maria e Luzia Maria de Jesus.
Conforme registro de óbito no livro da Igreja Católica, Sebastião Lopes Pimenta faleceu em 16 de agosto de 1939, às seis horas, sendo sepultado no cemitério de Laranjeiras.
Ao longo das gerações
Da união de Sebastião Lopes Pimenta e Joanna Maria da Trindade nasceram vários filhos, entre eles Maria José de Jesus, que se casou com José Lopes Pimenta. O casal viveu na Fazenda Penha, na localidade da Ribeira, distrito de Laranjeiras, onde teve numerosa prole, entre a qual se encontra Maria das Neves Silveira. Após a morte de José Lopes Pimenta, a Fazenda Penha passou à filha Maria das Neves e a seu esposo, Luís Lopes Silveira.
Maria das Neves Silveira nasceu em 28 de abril de 1934. Casou-se com Luís Lopes Silveira, filho de José Rodrigues de Farias e Amélia Francisca Lopes. O casal viveu na comunidade de Laranjeiras e teve os seguintes filhos: Francisca Flávia Silveira, Mazinha Silveira, Vera Lúcia Silveira e José Lopes Neto (Dedé).
Maria das Neves tem hoje 91 anos e, após a morte do marido, deixou sua casa em Laranjeiras e o comércio que mantinha com o esposo, popularmente chamado de "Bodega do Luís", passando a morar em Quixadá, Ceará. Luís Lopes Silveira, falecido em 2002, foi vereador do município de Banabuiú. O plenário da Câmara Municipal, onde atuou por três mandatos, recebe hoje o seu nome. A creche da comunidade de Laranjeiras também homenageia sua memória, levando igualmente o seu nome. Atualmente, a presidência da Câmara Municipal de Banabuiú é exercida por sua filha Mazinha Silveira, em seu quinto mandato como vereadora do município, de quem tenho orgulho de ser filha.
Mazinha Silveira é casada com o Dr. Arimatéa, natural de Quixeramobim, que há 36 anos atua na região como médico cirurgião e escolheu Banabuiú como sua cidade do coração. Foi vice-prefeito do município de 2017 a 2020 e de 2021 a 2024. O casal já possuía propriedades na região da Ribeira, vizinhas à Fazenda Penha. Após o falecimento de Luís Lopes Silveira, a Fazenda Penha passou a Mazinha Silveira e a seu esposo, mediante a aquisição das partes dos demais herdeiros, dando continuidade à presença da família naquelas terras.
Mazinha Silveira e Dr. Arimatéa são pais de Anapuena Havena, Juliana Mohana e Yapuena Modena.
A história de Laranjeiras entrelaça-se, assim, com a trajetória das famílias que ali viveram e contribuíram para a formação da comunidade ao longo das gerações.
Este artigo memorialístico tem como finalidade preservar a memória daqueles que ajudaram a construir esse pedaço do sertão cearense e honrar, em especial, a figura de Sebastião Lopes Bicas, um dos fundadores da Capela de São Sebastião, templo que hoje representa a história e a cultura da comunidade de Laranjeiras e do município de Banabuiú.
A filiação de Sebastião Lopes Bicas e sua participação na fundação da Capela de São Sebastião foram confirmadas a partir dos registros de batismo e óbito por mim localizados durante a pesquisa.
Para mim, este trabalho tem também uma dimensão afetiva: Sebastião Lopes Bicas é meu pentavô, e Laranjeiras é o lugar onde vivi algumas das melhores memórias de infância, na casa do vô Luís e da vó Maria, meus avós maternos. Que esta pesquisa contribua para que outras famílias da região possam igualmente recuperar e valorizar suas raízes.
A pesquisa permitiu reconstituir, com base em documentos, a linha de descendência direta de Francisco Lopes Bicas até a autora deste artigo, ao longo de oito gerações:
1ª geração: Francisco Lopes Bicas, natural de Estremoz, distrito de Évora, região do Alentejo, em Portugal.
2ª geração: Sebastião Lopes Bicas, um dos fundadores da Capela de São Sebastião de Laranjeiras, onde se encontra sepultado.
3ª geração: Maria Magdalena dos Prazeres.
4ª geração: Sebastião Lopes Pimenta.
5ª geração: Maria José de Jesus.
6ª geração: Maria das Neves Silveira.
7ª geração: Mazinha Silveira.
8ª geração: Anapuena Havena, autora deste artigo.
Cada um desses nomes foi confirmado em registros paroquiais e em outros documentos consultados durante a pesquisa, o que permitiu reunir, pela primeira vez de forma sistematizada, uma linha documental contínua desse ramo familiar.
Este estudo possui versão acadêmica para publicação em periódico especializado.
Fontes e Referências
ALVES DE SOUZA, Eusébio Nery. Noticia geographica, historica e descritiva do município de Quixeramobim. Revista do Instituto do Ceará, 1914.
GIRÃO, Raimundo. Montes, Machados e Girões. Revista do Instituto do Ceará, 1965.
MONTENEGRO, Seridião Correia. Perfil histórico, geográfico e antropológico dos municípios do Ceará. Fortaleza: INESP, 2023. Tomo II.
Livros paroquiais da Igreja Católica consultados pela autora: registros de batismo, casamento e óbito referentes à região de Laranjeiras.
Legislação estadual cearense referente à trajetória administrativa de Laranjeiras e Banabuiú.
Anapuena Havena
Historiadora e pesquisadora
Presidente da Academia Brasileira de História e Literatura


