
Laranjeiras em 1924: notas para a história de um município extinto
Anapuena Havena
Numa noite de sábado, como convém a uma pesquisadora que deseja tornar sua noite interessante, pus-me a analisar um documento antigo: o inventário do sargento-mor José Pimenta de Aguiar, meu 7º avô materno, que se fixou no território que hoje corresponde a Banabuiú, município do estado do Ceará.
Foi então que encontrei no documento, para minha surpresa, o nome do coronel Joaquim Felício Pinto de Almeida e Castro, meu 5º avô paterno, ali escrito como se saltasse da página, com aquela elegância própria da caligrafia da época.
O inventário, datado de 1828, cita o coronel Joaquim Felício como um dos procuradores. Como ele teve participação na Confederação do Equador, movimento separatista de grande expressão no Ceará, ocorrido em 1824, minha mente logo me levou à revolução, despertando em mim a vontade de retomar o estudo sobre o assunto.
Decidi deixar a leitura do inventário para outro momento e voltei-me aos arquivos referentes à Confederação do Equador. Nessa busca, encontrei uma notícia do jornal O Sitiá, publicada em 12 de outubro de 1924, na qual se dizia que “o povoado de Santa Rosa, do vizinho município de Laranjeiras, estará em festas a 31 do corrente”.
O texto informava que ali se comemorariam os cem anos do combate travado em suas cercanias, e anunciava que “em Santa Rosa, no local onde tombou Tristão Gonçalves, será levantado expressivo monumento, havendo a 31 do mês corrente, uma missa campal, discurso inaugural, além de outros festejos de caracter popular”.
A notícia chamou minha atenção por mostrar que, à época, Santa Rosa integrava o extinto município de Laranjeiras.
Pouco depois, encontrei outra matéria, agora posterior ao evento, publicada no mesmo jornal, em 9 de novembro de 1924, sob o título “Tristão Gonçalves”. O texto descreve as comemorações realizadas em 31 de outubro por ocasião do primeiro centenário do combate de Santa Rosa. Entre outros elementos, menciona a missa campal, a sessão cívica, a bênção da pedra fundamental do monumento, a inauguração da lápide e a presença de autoridades, o que demonstra como a memória da Confederação do Equador ainda se mantinha viva no interior cearense.
Na referida matéria, aparece o nome de Odilon Lopes Saldanha Pinto como prefeito de Laranjeiras e também uma nota em que o autor do texto, Eusébio de Sousa, lamenta que o Riacho do Sangue tenha perdido o foro de vila.
Continuei a buscar mais informações sobre o citado prefeito e, então, deparei-me com a publicação do Almanak Laemmert, de 1924, no qual encontrei mais um registro sobre o extinto município de Laranjeiras.
A descrição ali presente é interessante porque apresenta um retrato administrativo, geográfico e econômico da localidade. O impresso informa que o município de Laranjeiras foi criado pela Lei n. 1.613, de 29 de outubro de 1918, e elevado à categoria de termo judiciário pela Lei n. 1.654, de 29 de agosto de 1919. Situava-se à margem esquerda do rio Banabuiú e tinha como distritos a Vila, Barra do Sitiá, Pedras Brancas, Riacho do Sangue, Santa Rosa e Poço Comprido.
O Almanak registrou também aspectos que ajudam a reconstruir a vida local. A população da vila era composta por 1.004 habitantes, enquanto o município tinha 11.000 habitantes e 480 eleitores. Havia lavouras de algodão, mandioca, fumo e cana-de-açúcar.
Odilon Lopes Saldanha Pinto era o prefeito do município em 1924 e atuava também como inspetor escolar, além de figurar entre os criadores e agricultores do lugar. Germiniano Correia Nobre era citado como capitão, agente do Correio, comerciante, criador, agricultor e capitalista. Sebastião Lopes Biccas, homônimo de um dos fundadores da Capela de São Sebastião, figurava como estafeta.
O impresso traz ainda a composição da Câmara Municipal de Laranjeiras, que tinha como presidente Francisco Nobre d’Oliveira, vice-presidente Carlos Augusto de Lucena e secretário Antonio José Pimenta. São citados como vereadores Leonne Calixto de Oliveira, Manoel Luiz de Paula, João Braz de Oliveira e Manoel Bandeira de Mello.
O texto menciona a Capela de São Sebastião e o padre Dr. Aureliano Motta. Traz ainda uma relação de pessoas que colaboravam com a vida da comunidade, como professores, comerciantes, criadores, agricultores, fabricantes, alfaiates, barbeiros, carpinteiros, ferreiros, funileiros, modistas e sapateiros.
Esse impresso representa um valioso registro, pois oferece um retrato da vida pública, econômica e social de Laranjeiras em 1924, dois anos antes de sua extinção como município.
Como se percebe, saí da análise de um inventário de 1828, fui à Confederação do Equador e, em seguida, às comemorações do centenário do combate em que tombou Tristão Gonçalves, em Santa Rosa, e, de repente, me vi diante de Laranjeiras de 1924.
E assim uma pesquisa se desenrola: um nome leva a outro, um documento conduz ao seguinte, e aquilo que parecia apenas um detalhe em um velho papel corroído pelo tempo acaba revelando relações desconhecidas e nomes esquecidos.
Esse percurso conduziu também à reconstituição de aspectos da vida política, administrativa e social do extinto município de Laranjeiras, onde se encontram minhas raízes maternas.
O município de Laranjeiras, que tinha sede na vila de mesmo nome, foi extinto pela Lei n. 2.392, de 8 de setembro de 1926. Hoje, seu antigo núcleo constitui distrito do município de Banabuiú, no estado do Ceará.
Mais de um século nos separa dos jornais aqui apresentados. Ao longo desse tempo, muitas transformações ocorreram. Laranjeiras perdeu sua autonomia administrativa em 1926 e foi anexada a Quixadá como distrito. Mais tarde, o distrito de Laranjeiras passou a denominar-se Banabuiú. A partir do acampamento ligado à construção do Açude Arrojado Lisboa, surgiu um novo núcleo, que se tornou sede do município de Banabuiú, criado em 1988. O nome Laranjeiras reapareceu oficialmente em 1993, com a criação desse distrito.
Riacho do Sangue, que à época dessas publicações havia perdido o foro de vila e integrava o município de Laranjeiras, teve seu nome alterado para Frade e, posteriormente, para Jaguaretama.
O local onde tombou Tristão Gonçalves e onde se ergueu o monumento comemorativo de 1924 situa-se hoje em área do atual município de Jaguaretama, atingida pelas águas do açude Castanhão. O monumento, segundo notícias recentes, encontra-se em precário estado de conservação.
É pertinente recordar o que escreveu Eusébio de Sousa no periódico O Sitiá, a propósito de Riacho do Sangue:
“Nesse aprazível povoado, que por ironia do destino perdeu seu foro de vila, aguardando melhores dias em que os homens, detentores do poder, arrefeçam as suas paixões partidárias e possam firmar o belo princípio dos romanos — dar a cada um o que é seu (...)”
Por sua relevância para a reconstituição da memória de Laranjeiras e, por conseguinte, de Banabuiú, deixo a seguir a transcrição, mantida em sua forma original, do verbete que lhe foi dedicado no Almanak Laemmert de 1924.
LARANGEIRAS
(Villa e municipio)
A villa de Larangeiras e municipio foi creada pela lei n.º 1.613 de 29 de Outubro de 1918, e elevada á categoria de termo judiciario pela lei n.º 1.654 de 29 de Agosto de 1919. Acha-se situada á margem esquerda do rio Canabuiú, distando quarenta e nove leguas da Capital e nove da estação de ferro de Baturité.
A villa é servida de 1 agencia do correio e não tem telegrapho, sendo que a estação telegraphica mais proxima fica no districto de Pedras Brancas a 3 leguas da villa.
Em 1920, o termo do Riacho do Sangue foi supprimido e annexado ao municipio de Larangeiras, sendo um dos districtos deste municipio.
Districtos: Villa, Barra do Sitiá, Pedras Brancas, Riacho do Sangue, Santa Rosa e Poço Comprido.
É banhado pelos rios: Banabuiú, Quinipora, Tapuiará, Setiá, Riacho do Sangue e Jaguaribe.
Clima: temperado e muito saudavel.
Serras: Victoriano e Passagem.
Culturas: algodão, mandioca, fumo e canna de assucar.
Flora: é riquissima, sendo Pau Branco, Pau Darco, Pereiro, Cedro, etc.
Exportação: algodão, couros, queijo, fumo, etc.
População do Municipio: 11.000 habitantes e 480 eleitores.
População da Villa: 1.004 habitantes.
REPARTIÇÕES E SERVIÇOS FEDERAES
Correio:
Agente: Germiniano Correia Nobre.
Estafeta: Sebastião Lopes Biccas.
Juizo Federal:
Substituto do juizo seccional: Cicero Baptista de Queiroz.
Junta de Alistamento Militar:
Presidente: Antonio Aprigio de Medeiros, cap.
Secretario: Felix Bezerra do Amaral, ten.
Escrivão: T. Francisco Barreto.
2.ª Linha do Exercito:
Coronel: José Pompeu Rodrigues Pinheiro.
Major: Israel Cintra.
Capitães:
Antonio Aprigio de Medeiros.
Germiniano Correia Nobre.
Tenentes:
Felix Bezerra do Amaral.
Manoel Joaquim d’Araujo.
REPARTIÇÕES E SERVIÇOS ESTADUAES
ADMINISTRAÇÃO JUDICIARIA
Juiz da comarca: Dr. José Austregesilo R. de Lima.
Juiz municipal: Dr. Ivo Pessôa Bleasby.
Supplente: Francisco das Chagas Barros.
Promotor da comarca: Dr. Oscar Peixoto de Alencar.
Adjunto do termo: Carlos Augusto de Lucena.
Contador: Dr. Ivo Pessoa Bleasby.
Tabellião do publico judicial e interino: Temistocles Francisco Barreto.
Officiaes de justiça:
Firmino José da Costa.
Francisco Marcos do Nascimento.
ADMINISTRAÇÃO POLICIAL
Delegado: Francisco Xavier de Freitas.
Supplente: Manoel Luiz de Paula.
Escrivão: Themistocles Francisco Barreto.
COLLECTORIA ESTADUAL
Collector: Francisco Epiphanio de Chagas.
Escrivão: Francisco Monteiro Barreto.
INSTRUÇÃO PUBLICA
Inspector escolar: Odilon Lopes Saldanha Pinto.
Professores:
Raymundo Joaquim da Silva Vianna.
Julia Alemquer.
Francisco Leite.
Francisca Mendes de Oliveira.
Creza Ayres Dorgeval.
Maria Pinheiro.
ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL
PREFEITURA MUNICIPAL
Prefeito: Odilon Lopes Saldanha Pinto.
Secretario: Francisco Monteiro Barreto.
CAMARA MUNICIPAL
Presidente: Francisco Nobre d’Oliveira.
Vice-presidente: Carlos Augusto de Lucena.
Secretario: Antonio José Pimenta.
Vereadores:
Leonne Calixto de Oliveira.
Manoel Luiz de Paula.
João Braz de Oliveira.
Manoel Bandeira de Mello.
Procurador: João Clementino de Araujo.
Thesoureiro: Francisco Diogenes.
Ag. arrecadador: João Clementino de Araujo.
Porteiro: Francisco Antonio de Britto.
RELIGIÃO
Capella de S. Sebastião.
Vigario: Dr. Aureliano Motta, padre.
Sacristão: Antonio Francisco de Santiago.
INSTRUCÇÃO PARTICULAR
Professores:
Francisco Holl de Mello Barreto.
Alcibiades Barreto.
Manoel Dias.
Cosme Bezerra de Andrade.
José Martins de Freitas.
ASSOCIAÇÕES
Religiosas:
S. Vicente de Paula.
Coração de Jesus.
N. S. do Carmo.
COMMERCIO, INDUSTRIA E PROFISSÕES
Aguardente (Fabricas de):
Aristides das Chagas Moreira.
Francisco Xavier de Freitas.
Luiz José d'Oliveira.
Algodão (Fabricas de descaroçar):
Alexandrino Diogenes.
Antonio Xavier Pinheiro.
Germiniano Correia Nobre.
Pergentino Ferreira.
Armarinhos, fazendas, seccos e molhados:
Adelino Avelino de Mello.
Antonio Pinto Filho.
Dellarmano de Britto Filho.
Francisco Ferreira Lima.
Francisco Lucas da Silva.
Francisco Tertuliano da Costa.
Germiniano Corrêa Nobre.
João Benicio Sarmento.
José Antonio d’Oliveira.
José Abrahão.
José das Chagas de Britto.
Julia Saraiva.
Laurentino Theodoro da Silva.
Manoel José de Lemos.
Luiz Segundo Irmão.
Manoel Corrêa Nobre.
Maria Paulina de Araujo.
Miguel de França.
Napoleão Paes de Castro.
Sebastião Caroba Tamiarano.
Alfaiates:
Eugenio Bezerra.
Hermenegildo Bezerra.
Janoaria Gomes da Silveira.
Barbeiros:
Francisco Regio da Silva.
Manoel Lopes Pimenta.
Manoel Rosendo da Silva.
Carpinteiros:
Antonio Correia Tamearana.
Francisco Marcos do Nascimento.
João Luiz Filho.
Manoel Ferreira de Góes.
Manoel Martins Pereira.
Ferreiros:
Antonio Calista.
Cicero Macario.
Francisco Macuris de Arruda.
Waldemar Menezes da Rocha.
Funileiros:
João Luiz Filho.
Waldemar Menezes da Rocha.
Modistas:
Antonia Rosa de Viterbo.
Janoaria Gomes da Silveira.
Maria das Dores d’Oliveira.
Raymunda Barreiros Barretto.
Padaria: Antonio da Rocha Campos.
Pedreiros:
Antonio Francisco de Santiago.
Antonio da Rocha Campos.
José Alexandre da Silva Peixoto.
José Gonçalves Pimenta.
Luiz Serafim Ferreira.
Rapadura (Fabricas de):
Aristides Chagas Moreira.
Francisco Xavier de Freitas.
Luiz José d’Oliveira.
Sapateiros:
Antonio Gomes de Mello.
Francisco das Chagas.
Gervazio Pereira Cavalcante.
Joaquim Soares de Lima.
Luiz Seraphim Ferreira.
Lindolpho Gonçalves d’Alencar.
Agricultores e lavradores:
Francisco das Chagas d’Oliveira.
Francisco Nobre d’Oliveira.
Francisco Xavier de Freitas.
Germiniano Corrêa Nobre.
Luiz José de Oliveira.
Manoel Corrêa Nobre.
Odilon Lopes Saldanha Pinto.
Pergentino Ferreira.
Criadores:
Antonio Bezerra Freire.
Aristides das Chagas Moreno.
Francisco Bezerra Botão.
Francisco das Chagas d’Oliveira.
Francisco Epiphanio das Chagas.
Francisco Lucas da Silva.
Francisco Moreira Pinheiro.
Francisco Nobre d’Oliveira.
Francisco Regio da Silva.
Germiniano Corrêa Nobre.
João Francisco Corrêa Nobre.
Joaquim Lopes de Vasconcellos.
Levino José Celestino.
Manoel Rodrigues.
Odilon Lopes Saldanha Pinto.
Pergentino Ferreira.
Raymundo Lopes de Paula.
Capitalistas:
Cidromo de Mello Andrade.
Francisco Moreira Pinheiro.
Germiniano Corrêa Nobre.
João Francisco Corrêa Nobre.
Levino José Celestino.
Manoel Rodrigues Pinheiro Netto.
Pergentino Ferreira.
POVOADOS
Barra do Seteá.
Pedras Brancas.
Poço Comprido.
Riacho do Sangue.
Correio:
Agente: Areclides Tamariana.
Estafeta: Mariano Raulino Moreira.
Religião:
Igreja de N. S. da Conceição. Padre Assis.
Santa Rosa.
Fontes
O SITIÁ. Quixadá, ano 1, n. 10, 12 out. 1924.
O SITIÁ. Quixadá, ano 1, n. 14, 9 nov. 1924.
ALMANAK LAEMMERT. Rio de Janeiro, v. 3, 1924.
Anapuena Havena Castro Silveira da Silva
Presidente da Academia Brasileira de História e Literatura
Anexos:




