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Artigos Acadêmicos23 de abril de 2026

FOTOGRAFIA E POESIA: O QUE TE FERE TE MOTIVA A ESCREVER

Roberto Souto Duarte Pinheiro

1 Introdução

 

Frequentemente olhamos uma fotografia e seguimos quase que por instinto a tendência de olhar a imagem como um todo, olhamos um detalhe ou outro, mas de modo geral, passamos a vista e a vemos pela perspectiva do todo e não de suas partes. Igualmente, ao lermos uma poesia, e aqui falo de pessoas que de fatos se interessam por poesia como forma de literatura, o fazemos de forma direta, passando os olhos sobre o texto sem percebermos os detalhes dele. Porém, há aqueles cujo percepção é mais aguçada, que se atenta aos detalhes e deixa-se “ferir” por um detalhe que toca a alma, o coração. Talvez aquele detalhe que motivará os comentários, a impressão que ficará na memória ou até mesmo motivará o observador a produzir uma escrita sobre o que vê. Roland Barthes (1980) diz que “um detalhe sobrecarrega a totalidade da minha leitura; é uma intensa mutação do meu interesse, uma fulguração.” Aqui ele se refere a como um detalhe que chama sua atenção, que o “fere”, pode mudar completamente sua percepção de uma imagem fotográfica e é exatamente sobre isso que esse ensaio, que relata experiências pessoais do autor pretende fazer: falar como imagens fotográficas o motivaram a escrever poesias, cujo propósito foi muito além de simples descrição da imagem.

 

 

 

2 O Punctum de Barthes e a Prática Écfrastica

 

Barthes (1984) no livro A Câmara Clara, define o punctum como aquele elemento inesperado de uma fotografia que “fere”, “punge” ou “toca” profundamente o observador. Diferente do studium — que corresponde ao interesse cultural, histórico ou intelectual pela imagem —, o punctum é subjetivo, íntimo e muitas vezes difícil de explicar racionalmente. Envolve não apenas o conhecimento cultural e/ou histórico evocado pela fotografia, mas a emoção, que vai tocar o observador e quiçá, motivá-lo a produção de outra forma de expressão, que no caso desse ensaio, seria a poesia. O conceito de punctum vai também nos remeter a outro conceito o de écfrase, que segundo Heffernan (1993) “é a representação verbal de uma representação visual”, e é importante esclarecer que a écfrase vai além da simples descrição de imagem, sendo uma recriação discursiva de uma obra visual mediada pela linguagem. Mitchell (1994), ressalta que écfrase é a “tensão e o conflito entre o visível e o dizível.” Portanto, ao olharmos uma fotografia, poderá haver algo, ou o punctum, que ao chamar a atenção do observador, fere-o, marca-o, levando-o a desenvolver o texto poético, algo que muitos, eu mesmo, vão chamar de inspiração.

 

 

 

3 Fotografias e seus Puncta

 

Nessa sessão do ensaio, trago alguns exemplos de fotografias feitas por dois fotógrafos cujas fotos podem ser vistas em suas páginas do site Instagram. O primeiro, Douglas Moreira (@degefotografia) é essencialmente um fotógrafo urbano, captura cenas diversas da cidade do Rio de Janeiro, incluindo arquitetura, meios de transportes e pessoas nas mais diversas situações diárias. Sua fotografia tem um forte cunho crítico-social e de arquitetura urbana. O segundo, Alexsandro Marques Dias da Silva (@duvier), conhecido como Alex Duvier é essencialmente um fotógrafo que captura a vida no campo. Sua fotografia captura o dia a dia dos produtores de café na região de Carangola, MG. Foram escolhidos pelo autor desse ensaio por conta das excelentes imagens produzidas que motivaram o autor a escrever várias poesias.

 

 

No Varal


Num verde assim, pálido
A esperança expira
Da vida o hálito
Na intensão de um sorriso
Que soa feliz os seus guizos

Com lábios vermelhos e fortes
Tenaz como quem enfrenta morte
Pendura as roupas no varal
Colore a vida e colore o quintal

O sol que Ilumina a pele
Preta como a noite escura
Revela o esplendor de um povo
Que brilha em meio a uma vida dura

A imagem e a poesia
Dialogam, então, em extasia
Ao olharem maravilhados
O olhar ali capturado

 

 

 

 

Foto1. (Alex Duvier)

 

 

 

Colo

Pego no colo
A poesia,
Leve como uma criança.
Doce como fruta no pé.
Clara,
Como o voo de Aurora
Olho nos seus olhos,
Papéis de meus rabiscos,
Caminho de minha lírica,
Fruto do meu sonhar.
Em minhas " mineiridades"
Coloco os pés nos chãos,
Planto com minhas mãos,
Vivo toda a realidade
De amar e cultivar serenidade
Semeio a esperança
No olhar de uma criança,
Que em sua tenra idade
Conhece bem a liberdade !
E no colo dessa terra,
Nasce paz, fruto e pão
Que ampara a poesia
Surgida  ao raiar do dia !

 

 

 

 

Foto 2 (Alex Duvier)

 

 

 

Ele era só felicidade

Ele era só felicidade
Naquele momento de simplicidade
Naquela água gelada que corria
Ele apenas sorria e muito que ria


A água escorrendo pelo corpo
Sob o calor do sol fervente
Ele era gente, somente gente
Em seu momento absorto

Ele era só ventura
Ali se banhando no meio da rua
Vida solta, vida pura, vida cura
De todas as suas tantas desventuras

Ele era só felicidade
Ele era só um menino
Que pouca ideia fazia
Do tamanho de sua representatividade

 

 

 

 

Foto 3 (Douglas Moreira)

 

 

 

Bom dia, vida!

Bom dia, vida !
Dizem que és boa de ser vivida
Mas por que tanta gente sofrida ?
Por que tanta lágrima caída,
Pelo rosto escorrida ?

Bom dia, vida !
Por quê és assim corrida
Estamos sempre de saída
Muitos saem de nossas vidas
Deixando profundas feridas

Bom dia, vida ?
Por que tanta fome e miséria ?
Se isso é coisa tão séria,
Por que ninguém presta atenção
E te nega a mão ?

Bom dia,  vida !
Meu desejo e oração
É que alguém estenda um olhar
Que queiram te abraçar
Te acolher, te aconchegar
Em vez de te esmagar até te matar

Bom dia vida !

 

 

 

 

Foto 4 (Douglas Moreira)

 

 

 

 

4 Considerações finais

Dentro dos conceitos de punctum de Barthers e de écfrase de Heffernan, gostaria de trazer em minhas considerações finais alguns exemplos de puncta percebidos por mim, autor desse ensaio e que motivaram a escrita das poesias citadas acima. Na figura 1, o olhar foi a primeira coisa que me chamou a atenção seguido do verde pálido da roupa ou lençol estendido na corda. Uma mistura de vida sacrificada e esperança languida, mas que enfrenta com resistência as agruras da vida e por isso é capaz de “colorir a vida e colorir o quintal”! A figura dois, o olhar da criança e o azul da roupa da senhora como que complementando o azul do céu, dão uma verdadeira sensação de paz, serenidade e embora a vida seja dura, há suavidade no viver e há gratidão pela produção da terra. Na figura 3, as mãos cobrindo o rosto e a água que ligeira escorre pela pele lisa da criança, me deram imediata ideia de um momento de felicidade, de refrescância e a oportunidade, talvez rara da brincadeira com amigos. A figura 4 dá a imediata sensação do sofrimento, da perda e do abandono. Alguém que chega ao final da vida sem o cuidado da sociedade. Muito poderia ainda ser dito a respeito de cada detalhe das quatro fotografias. Mas deixo a cargo do leitor sentir cada punctum que cada fotografia pode produzir e quiçá suas inspirações.

 

O punctum pode ser qualquer parte ou detalhe na fotografia, que, no entanto, chamou atenção, tocou quem olha e certamente causou algum tipo de impressão, algo subjetivo que pode até ser difícil de explicar, mas que certamente está lá, causando sua impressão nos olhos mais sensíveis.

 

 

 

5 Referências Bibliográficas

BARTHES, Roland. A Camara Clara. Notas sobre a Fotografia. Tradução de Júlio Castanon Guimarães. RJ: Editora Nova Fronteira, 1980.

HEFFERNAN, James A. W. Museum of Words: The Poetics of Ekphrasis from Homer to Ashbery. Chicago: University of Chicago Press, 1993.

MITCHELL, W. J. T. Picture Theory: Essays on Verbal and Visual Representation. Chicago: University of Chicago Press, 1994.

 

 

 

Roberto Souto Duarte Pinheiro

Membro da Academia Brasileira de História e Literatura