
Dos corpora nos campi
Américo Venâncio Lopes Machado Filho
Na conhecida obra intitulada Famigerado, publicada originalmente em Primeiras estórias, no ano de 1962, pela Editora José Olympio, Guimarães Rosa inicia o conto, a que situa como “incerta feita” ou “evento”, com uma curiosa exclamação, por assim dizer, perguntada: “Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça?”
Essa “coisa” seria a chegada de um grupo de cavaleiros que “insolitissimamente” para à frente da casa do narrador. Um deles – que convém aqui que se lhe dê o nome –, Damázio, assim mesmo com Z, sem querer apear e não sem antes de certos trejeitos, “trefeitos” e “trelínguos”, desembucha: “– Eu vim preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada...”.
Para aqueles que conhecem essa peça literária, a “opinião ... explicada” tinha a ver com o significado de “famigerado”, melhor dito, pela voz de Damázio: “fasmigerado... faz-me-gerado... famisgeraldo... familhas-gerado”, algo fonicamente perto disso, de que tinha sido, por um moço do governo, chamado.
Com temor dos efeitos talvez danosos do “verivérbio”, o eu-narrador do texto roseano dourou – como se costuma dizer – a pílula, mantendo fora de alcance do conhecimento aquele que parecia propor “sangue, em suas tenções”.
O léxico é assim uma dessas coisas “sem pés nem cabeça”, não tendo sido em vão tê-lo Drummond associado, em parte, a uma “falsa eternidade”. Palavras vêm e vão e na obtusidade dos usos perdem-se referentes e significados. O pior é quando se lhe impõem, isto é, ao léxico, armadilhas gramaticais inusitadas, sobretudo de línguas de que um falante do vernáculo não lhe reconheça as regras funcionais, como é o caso do latim. Aliás, como diz o mesmo eu-narrador do conto: “O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo”.
Ao famigerado, por assim dizer, “famigerado” de Damázio, poder-se-iam juntar as vedetes do título deste comentário: corpora e campi, tão conhecidas no âmbito acadêmico, mas de perversa e danosa ação para julgamento do grau de erudição de interlocutores. Verdadeiras arapucas no português atual e carinhosamente cultivados nas mesmas caixas de rapé de esnobismo em que figuram algumas regências verbais anacrônicas, como as diferentes transitividades de “assistir” ou “pisar”.
Um falante do português, pouco afeito às questões relacionadas à pesquisa ou à vida universitária, não deve saber que o latim era uma língua de marcação morfológica de caso, já que no português isso se faz morfossintática ou sintaticamente. Ademais, para o plural, em qualquer caso, o português desenvolveu uma fórmula funcional bastante econômica, bastando, no geral, associar um <-s>, realizado alofonicamente, respeitados os diferentes dialetos existentes.
No latim, bastante perdulário morfologicamente, para a identificação das funções do nominativo, do vocativo, do acusativo, do dativo, do genitivo e do ablativo, em um dos três gêneros, uma desinência específica deveria ser associada à raiz. Haja memória!
Os nomes latinos da 1ª declinação, cujas terminações eram -us e -er, faziam seu plural, no mesmo caso, em -i, se fosse no masculino, ou seja, o plural de campus seria campi. Já ao quadro da 3ª terceira declinação, muito mais complexo, já que exibia uma variedade de terminações, atrelava-se a palavra corpus, cujo formato plural no nominativo seria corpora.
Imagino-me diante de Damázio, se eu moço do governo fosse e lhe tivesse de dizer que os corpora estavam nos campi. Talvez ele me dissesse “– Pois..., e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?”
Pois.
“– Não há como que as grandezas machas duma pessoa instruída!”.
Américo Venâncio Lopes Machado Filho
Membro da Academia Brasileira de História e Literatura


