
Destino, memória e coincidências
Sarah Carvalho Baptista
Há leituras que não se encerram ao virar da última página. Permanecem. Respiram dentro de nós como uma lembrança viva, adormecida apenas à espera de um chamado e, quando despertadas, trazem consigo não apenas a história que contam, mas a história que ajudaram a formar em nós.
Foi assim que me reencontrei com A Moreninha.
Entre minhas leituras diárias, ao percorrer um artigo publicado pela Academia Brasileira de História e Literatura da Confreira Anapuena Havena, deparei-me com o nome da obra e, naquele instante, algo em mim silenciou. Como se o tempo, respeitoso, tivesse suspendido seu curso apenas para que eu pudesse voltar. E eu voltei.
Voltei à sala da casa de meus avós. À luz amarelada suave que atravessava as cortinas. Ao cheiro inconfundível de livros antigos, aquele perfume levemente empoeirado que só as bibliotecas afetivas possuem. Em minhas mãos, um exemplar de capa dura marrom, guardião de um mundo que, até então, eu desconhecia. Eu tinha doze anos… e, sem saber, estava atravessando um portal.
Naquela casa, onde as estantes não eram apenas móveis, mas testemunhas silenciosas de gerações aprendi a admirar os livros antes mesmo de compreendê-los por completo. Eles me olhavam de volta. Chamavam-me. Prometiam algo que eu ainda não sabia nomear, e foi através de A Moreninha que esse mistério se revelou.
Meu primeiro romance. Meu primeiro amor literário. Meu primeiro encontro com o tempo que não era o meu e, paradoxalmente, sempre foi.
Ali nasceu em mim não apenas o gosto pela leitura, mas uma inclinação quase inevitável pelo romance de época, por narrativas que carregam em si a delicadeza dos sentimentos e a complexidade das entrelinhas. Foi ali que comecei, ainda menina, a compreender que as histórias têm o poder de nos atravessar e, uma vez atravessadas, jamais somos as mesmas.
A vida, contudo, seguiu seu curso, como um rio que não se detém para contemplar as margens que formou. Tornei-me mãe. Médica. Mulher de responsabilidades e silêncios. Mas, em algum lugar entre as urgências do cotidiano, a escrita encontrou espaço. Ou talvez tenha sido eu quem, finalmente, encontrou coragem para ouvi-la.
E então, como um gesto sutil do destino, desses que não anunciam sua grandeza, mas a revelam no detalhe, fui acolhida pela Academia Brasileira de História e Literatura. Recebi, com honra e reverência, a cadeira 31.
Meu patrono? Joaquim Manuel de Macedo. Há encontros que não são encontros. São reconhecimentos.
Ao me dar conta dessa ligação, senti algo que não ouso explicar apenas pela lógica. Era como se um ciclo silencioso se fechasse ou talvez se abrisse. O autor que me iniciou no universo literário, que plantou em mim a semente do romance, agora se fazia presente como guia simbólico da minha trajetória.
E foi então que as coincidências começaram a se revelar aguardando que eu amadurecesse o olhar.
Meu filho chama-se Joaquim. Meu pai e meu avô, Manoel. Nomes que ecoam, como uma herança invisível, o nome daquele que hoje me inspira. E, como se o destino ainda desejasse sublinhar sua caligrafia delicada, descubro que Joaquim Manuel de Macedo foi também médico.
Médico… e escritor. Assim como eu.
Nesse instante, não fui capaz de conter a emoção. Senti-me tocada por algo maior, algo que ultrapassa o acaso e beira o sagrado. Como se uma mão invisível, paciente e sábia, tivesse conduzido cada passo meu até aqui. Como se eu estivesse sendo, de alguma forma, acompanhada.
Não ouso afirmar certezas. Mas sinto. Sinto que há uma linha invisível que costura nossas histórias. Que há encontros que não pertencem apenas ao presente, mas a uma arquitetura mais profunda do existir. E que, por vezes, somos agraciados com a percepção desses encontros, pequenos lampejos de sentido que iluminam nossos dias mais comuns.
Sempre fui sensível a esses sinais. Aos detalhes que passam despercebidos pela pressa do mundo, mas que, quando notados, transformam-se em sementes de esperança. São eles que me sustentam nos dias difíceis. São eles que me lembram de que há beleza, propósito… e talvez até cuidado, onde julgávamos haver apenas acaso.
Sou ainda iniciante. Caminho com humildade pelo vasto universo do romance de época e dos contos contemporâneos. Sei da grandeza daqueles que vieram antes de mim e, entre eles, meu patrono ocupa um lugar especial, quase íntimo.
Mas escrevo com alegria, reverência e gratidão.
Gratidão por fazer parte da Academia Brasileira de História e Literatura, por estar entre aqueles que se dedicam a preservar a memória, a incentivar a cultura e a manter viva a chama da literatura. Um espaço que, em outros tempos, eu talvez não ousasse imaginar para mim. E, ainda assim, aqui estou.
Se me é permitido desejar, que minha escrita, ainda em formação, encontre, um dia, ecos da sensibilidade, da elegância e da permanência de Joaquim Manuel de Macedo. Que eu possa honrar, com minhas palavras, não apenas sua memória, mas também aquilo que ele despertou em mim, há tantos anos, naquela sala silenciosa.
Até lá, sigo.
Sigo escrevendo como quem escuta.
Sigo vivendo como quem observa.
Sigo acreditando como quem sente.
E, sobretudo… sigo aberta. Porque o destino, quando decide sussurrar, nunca o faz em vão.
Sarah Carvalho Baptista
Membro da Academia Brasileira de História e Literatura


