
Ciclo de Estudos Memória e Herança
Etapa II: Conhecendo as Raízes
A raiz de uma árvore, embora esteja, na maioria dos casos, escondida, tem a magnífica missão de nutrir e fixar a planta, proporcionando a ela estabilidade. Nossas raízes obedecem à mesma lógica. A história da nossa vida não se sustenta apenas no presente, mas nas histórias dos nossos antepassados: nas decisões que nossos pais tomaram, nas mudanças que nossos avós enfrentaram, nas perdas e conquistas vividas ao longo do caminho, nas reconstruções necessárias.
Quando enxergamos esses detalhes tão preciosos, percebemos de imediato que estamos continuando algo. Ainda que possamos mudar o caminho, fazer algumas curvas e até mesmo verdadeiros loopings, como em uma montanha-russa, começamos de algum lugar numa longa linha da história da nossa família, que já estava em curso antes do nosso nascimento.
Esta segunda etapa do Ciclo Memória e Herança pretende instigar essa consciência. E, para que isso aconteça, precisamos enxergar de forma clara, colocando no papel as informações que vamos encontrando, o que faremos por meio da produção da nossa própria árvore genealógica.
Para a construção da nossa árvore, precisaremos realizar pesquisas para reunir as informações que vão constituí-la. Alguns aqui já devem ter tido algum contato com essa ferramenta, outros não. Portanto, farei aqui uma rápida e simples explicação.
Uma árvore genealógica é uma representação gráfica de uma família. Ela começa sempre por nós mesmos e pode ser ascendente, seguindo em direção aos nossos antepassados, ou descendente, em direção aos nossos descendentes. No nosso caso, estamos buscando conhecer nossas raízes, portanto, faremos o percurso ascendente. Iniciamos com os nossos dados: nome completo, data e local de nascimento. Em seguida, subimos com as informações dos nossos pais. Depois, os avós maternos e paternos. Se possível, os bisavós. Registrar duas ou três gerações com segurança já nos dá uma base. E assim vamos avançando, como uma escada, fundamentando cada degrau (geração) com informações obtidas em documentos. Cada degrau apresenta subdivisões que se ramificam ainda mais, mas não nos preocuparemos com isso agora.
A história oral apresenta-se como ferramenta importante para iniciar uma pesquisa familiar, não como fonte de confirmação, mas como guia. Perguntar aos familiares mais velhos, portanto, é um ponto de partida. Perguntamos sobre nomes completos dos avós e bisavós, datas aproximadas de nascimento e óbito de cada um, cidades em que viveram e curiosidades sobre a referida pessoa, sempre tendo o cuidado de anotar cada informação.
Tenham sempre em mente que a memória serve como guia, mas apenas o documento confirma a informação. Uma árvore genealógica necessita de informações verificadas. Para confirmar as informações, usamos fontes primárias, como registros de batismo, casamento e óbito da Igreja Católica e registros de nascimento, casamento e óbito de cartórios. Pesquisas em inventários são fundamentais, pois podem confirmar e revelar vínculos familiares invisíveis à primeira vista.
Gostaria de chamar a atenção para um detalhe: ferramentas digitais auxiliam e facilitam nosso estudo, mas não devem substituir o método da pesquisa. Muitas árvores que encontramos prontas não são, necessariamente, corretas. Portanto, não representam provas. Há muita informação falsa disponível na internet, e não podemos contribuir para a propagação dessas informações. A confirmação das informações sempre exigirá a pesquisa nos registros originais. Quem se propuser a pesquisar deve ter o compromisso de fazer da maneira mais responsável possível, pois se trata da história da sua família.
Quando iniciamos uma pesquisa genealógica, podemos nos deparar com várias limitações, pois nem toda informação está facilmente disponível. Infelizmente, nossos documentos históricos não são tratados com o devido valor que deveriam receber.
Deixo aqui um rápido exemplo para ilustrar: certa vez, eu estava procurando informações importantes que estavam nos livros da Igreja Católica, responsável pelos registros sociais à época. Fui a determinada paróquia fazer a solicitação para a pesquisa no registro, e a responsável apenas me disse: “Temos o livro, mas é impossível você manuseá-lo, pois está se desfazendo em pó.” Saí decepcionada, pois todas as informações que eu procurava estavam ali, e a resposta daquela senhora era a confirmação de que jamais eu teria acesso a elas.
Assim como o caso citado, temos vários registros perdidos em incêndios, infiltrações e falta de manutenção adequada em igrejas, arquivos públicos e museus. Quem não se lembra do incêndio que aconteceu no Palácio da Quinta da Boa Vista, em que foi perdido um acervo de valor inestimável? Um descaso com a nossa história!
Durante as pesquisas, podemos, ainda, encontrar outras dificuldades, como datas registradas de forma equivocada, ortografias não padronizadas e até nomes escritos de forma errada ou incompleta, pois os escreventes registravam conforme ouviam. Embora possamos nos deparar com falhas de informação, não devemos tentar preencher lacunas com suposições. Não se pode inventar informação alguma. Algumas respostas precisarão de anos; outras talvez nunca sejam encontradas.
Pesquiso genealogia há mais de 12 anos e, ainda assim, estou sempre me surpreendendo. Compartilhei com o confrade Ênio de Medeiros (a quem a genealogia me deu a satisfação de apresentá-lo como primo) que ontem encontrei um novo documento referente ao meu hexavô e seus irmãos. Aqui destaco: faço pesquisas e estudos sobre esse ramo familiar há 12 anos, e ontem, depois de anos de estudo, encontrei um novo documento que me forneceu informações fundamentais para a pesquisa.
Percebam que estudar a história da família, montar uma árvore genealógica, é um processo lento e deve ser realizado com paciência e cautela. Para mim, esse estudo me dá a oportunidade de juntar as peças do grande quebra-cabeça da história da minha família e de apresentar esse legado à minha descendência. Sinto-me, assim, uma guardiã da minha história familiar, honrando cada nome, cada história.
Para quem ainda não se sente confortável em estudar a história familiar, uma alternativa é estudar a história da sua cidade: investigar a fundação, datas, documentos, principais nomes e as transformações pelas quais passou ao longo dos anos.
A função da pesquisa genealógica está longe de apenas trazer dados, mas, principalmente, de ampliar nossa consciência. Muitas vezes nos sentimos curiosos acerca da origem de tantas coisas, mas muitos nunca pararam para conhecer suas raízes, o que forma a sua base.
Conhecer nossas origens nos torna mais conscientes e responsáveis pelo lugar que ocupamos na história.
Aos interessados em mergulhar nesse estudo:
Comecem fazendo uma entrevista com familiares mais velhos, buscando nomes completos, datas de nascimento e óbito (ou data aproximada), onde nasceram e viveram. Como eles eram, quais características físicas, quais qualidades tinham? Anotem todas as informações que conseguirem. Vocês estarão compondo um registro!
Depois disso, comecem a estruturar a sua árvore genealógica no papel ou use ferramentas como o FamilySearch, que pode ser acessado pelo site ou aplicativo de celular.
A árvore tem início em você e vai em direção aos seus antepassados. Coloque seu nome completo, data e local de nascimento. A seguir, suba com os nomes completos dos seus pais e demais informações, prossiga com os nomes dos avós paternos e maternos, depois os bisavós. E quem se empolgar, sinta-se à vontade para avançar cada vez mais!
Informações como ano e local de nascimento e de óbito são fundamentais. E, se conseguir a data de casamento, enriquecerá ainda mais sua árvore.
No FamilySearch, estão disponíveis registros digitalizados de livros da Igreja Católica e alguns registros civis, que poderão servir como base para confirmação de informações.
Quero destacar que uma pesquisa genealógica completa envolve consultas em arquivos públicos municipais, cartórios, bibliotecas, arquivos de igreja, museus, hemerotecas etc. Mas esse não é o objetivo do Ciclo, pois não estamos tratando de genealogia profissional.
O que pretendemos aqui não é a construção de uma árvore genealógica completa, com suas ramificações e riqueza de informações, o que pode necessitar de anos, mas que cada um visualize, mesmo que de forma simples, o início da sua árvore familiar, e que, assim, possa ter mais clareza quanto aos nomes, vidas, pessoas, escolhas e processos que foram necessários para que você esteja vivendo o hoje.
É interessante pensar que cada um de nós tem quatro avós, oito bisavós, dezesseis trisavós, trinta e dois tetravós, e esse número só aumenta! O emaranhado dessas vidas levou até você! Pense em quantas decisões foram tomadas nesse percurso, quantos desafios foram enfrentados…
Pensar nisso nos leva a refletir sobre o legado que carregamos. Carregamos um DNA que percorre gerações. Inclusive, existem características que você possui que, talvez, alguém que viveu há dois séculos também possuía.
Certa vez, pesquisando sobre minha família paterna, encontrei a seguinte descrição sobre um hexavô: homem de baixa estatura, de poucas palavras e de valores rígidos. Imediatamente pensei: esse é meu pai!
Ao mesmo tempo, podemos perceber que carregamos padrões de comportamento observados também em antepassados, mas temos a possibilidade de interromper aquilo que não consideramos adequado passar adiante. Temos a escolha de não transmitir aquilo que não consideramos bom. Quando temos consciência disso, podemos barrar um comportamento que consideramos negativo com mais facilidade.
O conhecimento sobre nossa história familiar abre diversas janelas, ou melhor, diversos ramos. E mergulhar neles é sempre uma descoberta surpreendente!
Anapuena Havena
Historiadora e pesquisadora
Presidente e Membro Fundadora da Academia Brasileira de História e Literatura


