
BEATRIZ FRANCISCA DE ASSIS BRANDÃO (1779–1868): A POETISA ESQUECIDA DE OURO PRETO E SUA CONTRIBUIÇÃO À LITERATURA BRASILEIRA
Brisa Coelho
RESUMO
Este ensaio apresenta Beatriz Francisca de Assis Brandão (1779–1868), poetisa, educadora, compositora e tradutora nascida em Vila Rica, atual Ouro Preto (MG), cujo extenso legado literário permanece em grande medida desconhecido do público brasileiro. Com base na tese de doutorado de Cláudia Gomes Dias Costa Pereira, defendida na Universidade Federal de Minas Gerais em 2009, o texto reconstrói a trajetória biográfica de Beatriz, analisa sua produção poética e discute as razões de sua exclusão do cânone literário nacional, situando-a no contexto da escrita feminina oitocentista no Brasil. Como escritora nascida em Ouro Preto, Brisa Coelho compreende, de forma singular, a importância de apresentar o legado desta fascinante mulher, avançada a seu tempo e criadora de seu próprio destino, cujas raízes históricas e culturais são, também, as raízes da cidade que as viu florescer.
Palavras-chave: Beatriz Brandão; literatura brasileira; escrita feminina; século XIX; cânone literário.
1 INTRODUÇÃO
A história da literatura brasileira guarda em seus recônditos arquivos e bibliotecas nomes que o tempo tratou de apagar, não por falta de talento ou relevância, mas por força de uma exclusão sistemática, construída sobre critérios que durante séculos privilegiaram a voz masculina. Beatriz Francisca de Assis Brandão é um desses nomes.
Nascida em 1779, em Vila Rica (hoje Ouro Preto, Minas Gerais), Beatriz foi poetisa, regente de coral, compositora, tradutora, professora e precursora da educação feminina em sua cidade. Viveu até 1868, deixando uma produção literária que, segundo pesquisa realizada ao longo de treze anos pela professora Cláudia Gomes Dias Costa Pereira, soma mais de quatrocentas páginas de textos, sendo a maior parte inédita em forma de coletânea.
A tese de doutorado intitulada Contestado Fruto: a poesia esquecida de Beatriz Brandão (1779-1868), defendida em 2009 na Faculdade de Letras da UFMG e orientada pela Profa. Dra. Constância Lima Duarte, constitui o mais completo estudo biográfico e literário sobre a autora até hoje realizado. É com base nessa obra que o presente ensaio busca apresentar Beatriz Brandão a um público mais amplo, contribuindo para o reconhecimento de sua importância para a cultura e as letras brasileiras.
2 OURO PRETO: O BERÇO DE UMA VOZ PIONEIRA
Para compreender Beatriz Brandão, é preciso antes compreender o solo cultural em que ela floresceu. Vila Rica, no século XVIII, era mais do que a capital da mineração colonial: era um efervescente centro artístico e intelectual. Em seu ambiente urbano circulavam mestres da escultura, pintura e música (Antônio Francisco Lisboa, Manuel da Costa Ataíde, Emerico Lobo de Mesquita, dentre outros), e florescia também a poesia de inspiração arcádica, inaugurada no Brasil com a publicação de Obras, de Cláudio Manuel da Costa.
Segundo Pereira (2009, p. 16–17), os poetas de Vila Rica, ao invocar os conceitos de razão, natureza e verdade em obediência às características do Arcadismo europeu, "estabeleceram o caminho das letras em bases sólidas, transformando o que até então não passavam de manifestações estanques, em um sistema literário organizado". Neste mesmo ambiente, nascida no seio da Inconfidência Mineira e da ebulição literária que ensaiava os primeiros passos de uma Literatura sistematizada, Beatriz Brandão desenvolveria uma voz poética singular.
A pesquisadora situa Beatriz ao lado de nomes como Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto, todos compartilhando a característica de terem nascido ou vivido em Ouro Preto. Mas enquanto os homens ganharam o cânone, Beatriz permaneceu esquecida.
3 UMA VIDA DE OUSADIA E PRODUÇÃO
A biografia de Beatriz Brandão é, em si mesma, um ato de resistência. Reconstituída por Pereira (2009) a partir de documentos avulsos encontrados nos arquivos da Casa do Pilar, Casa dos Contos, Câmara Municipal de Ouro Preto e Mariana, do Arquivo Público Mineiro e das Bibliotecas Nacionais do Rio de Janeiro e de Lisboa, a trajetória da escritora revela uma mulher que, em uma sociedade que mantinha as mulheres no analfabetismo, escolheu e lutou pelo caminho das letras.
De personalidade versátil e coerente, Beatriz trilhou caminhos bastante ousados para uma mulher de sua época. Conforme destaca o historiador Augusto de Lima Jr., ela era "a figura intelectual de mais prestígio em Vila Rica" (LIMA JR., 1961, p. 63–73 apud PEREIRA, 2009, p. 24).
Em 1829, o jornal O Universal noticiou sua intenção de abrir um colégio para meninas, no qual ensinaria leitura, escrita, aritmética, línguas italiana e francesa, música, piano, dança, desenho e bordado. No ano seguinte, em 1830, Beatriz publicou seu primeiro texto no jornal O Mentor das Brasileiras; e em abril do mesmo ano, o Conselho Provincial a designou examinadora de candidatos às escolas de primeiras letras de Ouro Preto, "por não existir nesta cidade de Ouro Preto, outra pessoa com a sua competência" (LIMA JR., 1961, v. 3, p. 68 apud PEREIRA, 2009, p. 75).
Em 1831, seus poemas foram publicados no Parnaso Brasileiro do Cônego Januário da Cunha Barbosa, coletânea da qual participavam, entre vários homens, apenas duas mulheres: ela e Delfina Benigna da Cunha.
Casou-se com homem mais jovem e, após vinte e seis anos de matrimônio marcados por sevícias documentadas em processo eclesiástico, obteve o divórcio em 1839. Aos sessenta anos, Beatriz partiu para o Rio de Janeiro, onde frequentou os meios literários mais conhecidos e publicou em periódicos como o Marmota Fluminense e O Guanabara. Um ano antes de sua morte, em 1867, seu nome foi reconhecido no Dicionário Bibliográfico Português de Inocêncio Francisco da Silva.
4 O ENGAJAMENTO POLÍTICO E A PÁTRIA EM VERSO
A atuação de Beatriz Brandão não se limitou à esfera privada da escrita. Em 1822, quando Dom Pedro, então Príncipe Regente, visitou Vila Rica, foi ela quem organizou a recepção e compôs o hino de saudação. O jornal Abelha do Itacolomi (1825, p. 39) descreveu o evento:
(...) após a participação do imperador nas festividades da Praça Tiradentes, igreja do Pilar e do Palácio dos Governadores, a artilharia anunciou, com 101 tiros, a abertura do Teatro Municipal de Vila Rica (...). Iniciou-se a solenidade final com o descendimento dos retratos do S.S.M.M.I.I. e, logo após, repetiu-se um Elogio composto por uma Senhora Mineira depois do qual o Exmo. Presidente deu os vivas (...) e de um dos camarotes entoou a mesma Senhora Mineira o novo Hino de sua composição. (apud PEREIRA, 2009, p. 72)
Augusto de Lima Jr. compara a militância de Beatriz à de seu irmão Teobaldo, destacando que ela "organizava as moças, compondo cantos patrióticos, animando os tíbios e comodistas" e que, "agitando-os, estava Beatriz Francisca de Assis Brandão, já consagrada como figura de primeira grandeza na inteligência e na ação" (LIMA JR., 1961, p. 71 apud PEREIRA, 2009, p. 71).
É notável que esse engajamento cívico coexistisse com uma voz poética íntima e sensível. Em seus poemas, Beatriz transitava entre o neoclassicismo de inspiração europeia e temas profundamente humanos: o amor, a saudade, a natureza, a morte e a condição feminina.
5 A OBRA: DIMENSÃO E DIVERSIDADE
A pesquisa de Pereira (2009) reuniu, pela primeira vez, o conjunto da produção literária de Beatriz Brandão: um total de dez conjuntos de textos dispostos em mais de quatrocentas páginas, "nunca publicada em conjunto" (PEREIRA, 2009, p. 28). Entre as obras identificadas estão:
a) Cantos da mocidade (1856) — livro com oitenta e seis poemas de sua autoria, publicado pela Tipografia Dois de dezembro de Paula Brito, no Rio de Janeiro;
b) Cartas de Leandro e Hero (1832/1859) — tradução do francês, publicada inicialmente no Parnaso Brasileiro e depois em volume próprio;
c) Catão (1860) — tradução do drama trágico do abade Metastasio, do italiano;
d) Saudação à estátua equestre de D. Pedro I (1862) e Saudação a D. Violante Atabalipa (1859) — poemas comemorativos e de homenagem;
e) Poemas esparsos em periódicos: O Mentor das Brasileiras, Marmota Fluminense, O Guanabara e outros (de 1830 a 1864);
f) Traduções inéditas de óperas de Metastasio: Alexandre na Índia, Semíramis Reconhecida, José no Egito, Diana e Endimião, entre outras.
Em trinta e seis anos de produção literária, "quase toda ela feita às escondidas, em uma sociedade em que a mulher nem sequer tinha o direito de estudar", Beatriz publicou um livro com oitenta e seis poemas, dois livros traduzidos e cinquenta e oito poemas esparsos em jornais e coletâneas (PEREIRA, 2009, p. 501–502). Ressalte-se que a própria autora esclareceu que parte de suas obras foram queimadas "por aqueles que não aprovavam, em uma dama, um comportamento tão ousado como o de escrever poesias" (PEREIRA, 2009, p. 502).
A produção poética de Beatriz revela sensibilidade lírica refinada, conhecimento profundo da tradição clássica e capacidade de tradução literária. Os versos que ela mesma escolheu como epígrafe de seus Cantos da mocidade traduzem com precisão sua postura diante do mundo:
Corajosa lutei, e se o triunfo / Não consegui completo, ao menos tive / A glória da firmeza nos desgostos, / Nas privações, nas mil contrariedades / Com que atalhar quiseram a carreira / A que um violento impulso me impelia. / Eis, da minha constância vos of'reço / O contestado fruto; pouco vale, / Mas valor lhe dará vossa indulgência, / E serão bem aceitos como of'renda / De uma patrícia, de uma Brasileira. (BRANDÃO apud PEREIRA, 2009, p. 6)
6 O SILÊNCIO DO CÂNONE: POR QUE BEATRIZ FOI ESQUECIDA
A questão central da tese de Pereira (2009) é justamente a do esquecimento: como uma escritora de tamanha produção e relevância desapareceu da historiografia literária brasileira?
A pesquisadora aponta que Beatriz figura, no século XX, em pouquíssimas obras, entre as quais o Panorama da Literatura Brasileira, de Afrânio Peixoto (1940, p. 5–9), onde aparece ao lado de apenas outras oito escritoras num universo de quatrocentos e dezesseis escritores (PEREIRA, 2009, p. 23). Sua ausência do cânone literário nacional é resultado de uma exclusão ideológica que afastou as mulheres, e especialmente as mulheres do século XIX, dos espaços de consagração literária.
Beatriz e suas contemporâneas, como Ângela do Amaral, Bárbara Heliodora, Delfina Benigna da Cunha, Violante Atabalipa e Nísia Floresta, viveram e escreveram no século XIX e desapareceram da história da literatura a partir do século XX. Como observa Pereira (2009, p. 500–501), "o cânone literário ainda exclui muitas mulheres, mas se, por construção ideológica que representa, não é possível mudá-lo, mudou-se, por outro lado, o olhar sobre as Letras".
A comparação com a prima Maria Dorotéia Joaquina de Seixas (a famosa Marília de Dirceu, imortalizada nos versos de Gonzaga) é reveladora: enquanto Dorotéia ganhou a eternidade emprestada por um poeta homem, Beatriz, autora ela mesma de versos e hinos, ficou à sombra. A ironia não passou despercebida: aquela que compôs, regeu e publicou foi esquecida; aquela que foi cantada por outro, lembrada.
7 A MULHER DE LETRAS NO BRASIL OITOCENTISTA
Para contextualizar a trajetória de Beatriz, é essencial compreender o lugar da mulher na sociedade brasileira do século XIX. A educação feminina era precária ou inexistente para a maioria; o acesso à imprensa, restrito; a publicação de textos de autoria feminina, vista com desconfiança ou condescendência.
Beatriz estudou às escondidas, lutou por sua ascensão intelectual e social, fundou escola para moças e sonhou expandir suas conquistas a todas as mulheres de seu tempo. Em seu discurso na Câmara Municipal de Ouro Preto, em junho de 1831, ao apresentar os resultados de sua primeira turma de alunas, ela demonstrava não apenas competência pedagógica, mas consciência do papel transformador da educação feminina.
Pereira (2009, p. 501) sublinha que a rede de escritoras integrada por Beatriz e suas contemporâneas "era impulsionada pelas transformações políticas, sociais e econômicas que fervilhavam no cenário brasileiro oitocentista, como a Independência, o fim da escravidão e a proclamação da República", e que estas transformações provocaram "na sociedade um outro olhar sobre a mulher, cuja educação passou a ser vista como uma condição para o progresso da nação".
Beatriz era, portanto, simultaneamente produto e produtora de seu tempo: uma mulher que não apenas escrevia sobre o mundo, mas que agia sobre ele.
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Dar a conhecer Beatriz Francisca de Assis Brandão é um ato de justiça histórica e literária. Sua vida e sua obra desafiam a ideia de que as mulheres brasileiras do século XIX eram apenas figuras domésticas, à margem da produção cultural. Ela foi, ao contrário, uma das mais produtivas escritoras de seu tempo, e das mais corajosas.
Como escreveu Pereira (2009, p. 502), "Beatriz Francisca de Assis Brandão, a ilustre e desconhecida filha de Ouro Preto, por sua efetiva participação no contexto histórico e literário brasileiros, e, sobretudo, pela inestimável contribuição de sua obra para as Letras nacionais, evidencia, uma vez mais, o quanto ainda se desconhece a participação da mulher na construção da história deste país".
Que a aceitação de Beatriz Brandão como Patronesse da The American Society of History, Arts & Letters (ASHAL) seja mais um passo, simbólico e concreto, no reconhecimento que ela sempre mereceu.
REFERÊNCIAS
Fonte principal
PEREIRA, Cláudia Gomes Dias Costa. Contestado Fruto: a poesia esquecida de Beatriz Brandão (1779-1868). Tese (Doutorado em Letras – Estudos Literários) – Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2009. 524 p.
Obras de Beatriz Brandão citadas
BRANDÃO, Beatriz Francisca de Assis. Cantos da mocidade. Rio de Janeiro: Empresa Tipográfica Dois de Dezembro de Paula Brito, 1856. v. 1.
BRANDÃO, Beatriz Francisca de Assis. Cartas de Leandro e Hero. Extrahidas de uma traducção franceza. 2. ed. Rio de Janeiro: Tipografia de B.X.P. de Sousa, 1859.
BRANDÃO, Beatriz Francisca de Assis. Catão. Drama trágico pelo abade Pedro Metastasio, traduzido do italiano. Rio de Janeiro: Tipografia B.X.P. de Sousa, 1860.
Obras sobre Beatriz Brandão citadas na tese
LIMA JR., Augusto de. Beatriz Francisca de Assis Brandão, musa da Independência, vida gloriosa e trágica. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Belo Horizonte, v. 8, p. 63–73, 1961.
PEIXOTO, Afrânio. Panorama da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1940. p. 5–9.
SILVA, Inocêncio Francisco da. Diccionario Bibliographico Portuguez. Lisboa: Imprensa Nacional, 1867. Tomo oitavo, p. 367.
BRISA COELHO
Membro da Academia Brasileira de História e Literatura


