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ACADEMIA BRASILEIRA
DE HISTÓRIA E LITERATURA
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Artigos Acadêmicos20 de maio de 2026

A URSS: Uma Mescla de Ateísmo e Religião

Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho

As controvérsias fazem parte da história humana. Acirram debates, definem políticas, movem economias e criam guerras. Mas, de todas as controvérsias relevantes, a que mais gera contradições é a mescla entre religião e ideologia. E era isso o que ocorria na URSS.

 

Durante as duas revoluções socialistas russas de 1917, e bem depois da criação da própria URSS, milhares de igrejas ortodoxas haviam sido derrubadas pelos bolcheviques, numa sucessão de crimes contra a religião (e, portanto, contra a história) que pôs abaixo cerca de 40 mil templos, deixando a restar pouquíssimos. Não levavam em consideração, nem mesmo, que Moscou sempre intentou ser reconhecida como a "Terceira Roma" (depois da própria e Bizâncio): o que importava era impor um Estado ateu.

 

Mas não foi isso que obtiveram. A dureza, a fome e a semiescravidão decorrentes do modo coletivista, mantido sob censura brutal e sem que houvesse a possibilidade de recurso a alguma entidade metafísica, poderiam provocar uma grande rebelião contra o próprio Estado soviético, de modo tão ou mais feroz quanto a anterior derrubada do Czar Nikolau Romanov.

 

Isso fez que o Partido tomasse uma decisão inesperada. Quando o líder revolucionário Vladimir Lênin morreu, seu sucessor Josef Stálin determinou que o corpo fosse embalsamado e exposto num mausoléu na Praça Vermelha. Ali, poderia haver a peregrinação do povo a cultuar o novo e único "deus" então permitido, em substituição ao deus ortodoxo dos tempos czaristas: Lênin passou a ser o depositário da fé do povo, constantemente visito junto ao seu corpo no mausoléu, convertido num templo religioso de facto.

 

O mausoléu fica, como dito, na Praça Vermelha. É onde se encontra, também, a espetacular Catedral de São Basílio, construída séculos antes sob as ordens do Czar Ivan IV, O Terrível (há um conto que diz ter ele, depois de pronta, mandado furar os olhos do arquiteto que a ergueu, para que nunca mais repetisse algo tão belo e maravilhoso). A Catedral, por sua história e localização, transformada foi de local de culto a símbolo do Estado soviético, já que defronte ao mausoléu. Era o lembrete de que, não obstante o "deus" ali próximo exposto, a grandeza do Estado ateu ainda pairava sobre aquela ágora. Vejamos, por exemplo, que os desfiles militares da URSS (e hoje, da Rússia) lá ocorriam e ocorrem, com um simbolismo perpétuo de caráter militarista.

 

E as tropas desfilantes são regularmente observadas pelos "semideuses" (os antigos Secretários-Gerais do PCUS, sucessores de Lênin - Stálin, Kruschev, Brejnev, Andropov, Chernenko e Gorbachov, e, após a fragmentação da URSS, Iéltsin, Medvedev e Putin). "Semideuses" que se declaravam (alguns) e dizem seguir o ateísmo, mas certas práticas observadas evidenciaram que, mesmo neles, há um resquício de religiosidade ou misticismo.

 

Por exemplo, em dado momento, Leonid Brejnev, que governou a URSS de 1964 a 1982 (tendo iniciado a Guerra Soviético-Afegã), consultou-se com a vidente búlgara Vangelia Pandeva Gushterova, mais conhecida como "Baba Vanga" (ou "Nostradamus dos Balcãs"), que teria previsto os atentados de 11 de Setembro de 2001, a Pandemia de Covid-19 e a Terceira Guerra Mundial, dentre outros acontecimentos.

 

Eis, então, a prova da humana falsidade que representava, e representa, a intervenção estatal na vida privada das pessoas, especialmente a religiosa. Brejnev era um ser humano. Um ser humano desprezível, é verdade. Mas tão humano que rejeitou Lênin, e preferiu Vangelia Pandeva Gushterova.

 

 

Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho

Membro da Academia Brasileira de História e Literatura