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DE HISTÓRIA E LITERATURA
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Artigos Acadêmicos24 de março de 2026

A Mostardeira

Amanda Moura

Em uma cidade do interior do Rio, nascia, na primavera de 1978, uma linda menina, em uma casa simples, na zona rural, com vários outros irmãos correndo pela casa. Ninguém ali poderia imaginar como seria sua vida, mas, de acordo com tudo que eles mesmos experimentavam, era certo que seria em perspectiva, mas sua mãe tinha um olhar diferente para ela.

 

Dona Marília não sabia o que poderia fazer para que Gisele tivesse um futuro diferente, mas tinha esperança, e isso, naquele momento, já era suficiente. Mas o que Dona Marília poderia fazer além de planejar estudos, idealizar, imaginar e projetar? A realidade era cruel: pouca comida para dividir entre os 9 filhos, um marido que saía para trabalhar, mas voltava bêbado, com o dinheiro do trabalho deixado no bar.

 

Dona Marília sofria com aquilo e, ao ver um dos filhos falecer por causa de uma doença pequena que seu corpo franzino não conseguiu suportar, decidiu pegar toda a prole e vagar.

Filhos e filhas mais velhos ajudavam com o trabalho, enquanto a mãe depositava sobre a pequena a esperança de transformação de toda a família. Os irmãos também começaram a acreditar, até porque, qual seria a outra saída?

 

Foi neste contexto que Gisele cresceu. Mesmo em meio às necessidades da vida, uma menina mimada, centro das atenções, quase que a deusa do lar, onde todos a serviam, depositando suas esperanças de um futuro melhor.

 

Quem poderia imaginar que, em meio a uma família pobre, poderia haver criança mimada?

Gisele, já adolescente, tinha tudo que queria. Como todos da família renunciaram ao que desejavam para fazer o que era necessário, tudo em prol dela, ela tinha as melhores roupas, cabelo cuidado, pele viçosa, uma vitrine maravilhosa que escondia muito bem a escravidão de um lar que depositou a esperança em algo que não se pode sustentar de verdade.

 

A adolescente popular chamava a atenção de todos na escola. Além de bonita, era inteligente, sociável e até, de certa forma, “humilde”, como ela mesma costumava dizer, pois, nos trabalhos em grupo da escola, ela se colocava à disposição para ajudar àqueles que tinham dificuldade; nos esportes, ela tinha seu grupinho, mas sempre incentivava acolher pessoas novas, quanto mais, melhor. Enquanto isso, sua família continuava a lhe servir. Afinal, era necessário alguém na história sofrer para sustentar o ídolo.

 

Enquanto o público aumentava, em seu coração, mal ela podia imaginar, crescia sua necessidade de validação, e usava sua “humildade” para que seu público crescesse mais e mais. Do lado de fora, pessoas a elogiavam, não conseguiam imaginar como ela conseguia ser tão perfeita, mas, ao chegar em casa, as reivindicações só aumentavam. Sua mãe, agora doente, perdendo suas forças e vendo que não teria muito tempo até ver sua filha bem de vida, começou a buscar na fé algo que acelerasse o tempo e permitisse que Gisele conseguisse logo uma renda, para realizar a esperança de salvação da mãe.

 

Uma fé um pouco distorcida: não sabia para quem pedir, e logo veio uma resposta, que Dona Marília achou ter vindo dos céus. Gisele chegou em casa, depois de um campeonato de basquete, com a informação de que um olheiro a chamou para conversar e que tinha um empresário para representá-la num time muito conhecido na cidade do Rio de Janeiro.

 

A felicidade invadiu a casa, todos já podiam respirar aliviados, como que a dureza já tivesse seu fim decretado naquele dia. Pela primeira vez, viram Gisele ser carinhosa, dedicada, pois em breve seria sua despedida.

 

Dona Marília viu que sua fé surtiu efeito, e Gisele viu o quanto “quem tem amigos não morre pagão”. Ela ouviu o conselho do pai de uma de suas amigas, que, para seu arremesso ficar mais livre, ela não podia usar nada que prendesse seu busto, e, se sentindo livre, conseguiria chamar atenção de empresários que sempre assistem aos jogos delas. Ela achou estranho, mas decidiu experimentar.

 

Tendo chegado o grande dia, a família vestiu a melhor roupa para ir com ela para a rodoviária, e suas amigas também estavam ali. Seguiu a bela menina seu rumo, deixando para trás lembranças, afetos e todos que depositaram nela suas esperanças.

 

As rotinas de treino foram intensas, mas ela tinha uma atenção especial, e quem, em um time, gosta de pessoa que tem atenção especial? Ocorre que ninguém ousava falar nada para não perder a chance de carreira, mas Gisele era a queridinha do presidente do clube, frequentando, inclusive, sua casa e as festas da família, se tornando a melhor amiga de sua filha. Para ela, pouco importava o que as colegas de equipe achavam, sua ambição crescera.

 

Gisele não tinha tempo para se lembrar de seu passado, nem de quem dependia dela para mudar de vida. Seu dia a dia era corrido entre as atividades do clube desportivo e seu novo clube social. A plateia era grande e de status muito mais elevado, sua postura não mais combinava com sua história, mas que história?

 

O presidente do clube tinha planos para ela, planos muito elevados, e ela gostou bastante da ideia; tudo que precisava fazer era se submeter a uma nova espécie de contrato, um em que sua beleza lhe daria retorno maior que o esporte.

 

Logo, Gisele já estava estampando capas de revista, participando de eventos da alta sociedade, até que, em uma entrevista para um programa de TV, exatamente o que sua mãe era assídua telespectadora, a anfitriã, tratando o tema raízes, lhe pergunta sobre as suas, como ela se definiria.

 

Gisele refletiu um pouco, percebeu que, se demonstrasse um pouco de suas emoções, conquistaria o afeto do público e teria a chance de ir além. Ela aprendeu, durante sua infância, o poder da esperança alimentada com alguém que se vê realizado, identificado e sensibilizado na vida do outro.

 

Ela disse que sua vida era semelhante àquelas árvores que formam túneis naturais nas estradas, pessoas passam e admiram a beleza que ela forma quando se junta a outras que são semelhantes, que, para ela se manter demonstrando aquela beleza para quem passa, é necessário estar bem firmada em um solo forte, que alimente e lhe dê nutrientes. Os que passam e admiram olham apenas para as árvores, ninguém vê o solo, mas o que seria dela sem este solo?

 

Sua mãe estava assistindo, já emocionada, apresentava todas as justificativas para os vizinhos sobre qualquer denúncia que se fizera do abandono da filha, brigava com os outros filhos, porque sempre dizia que era falta de tempo da menina, que ela ainda precisava se estabelecer, e aquele momento de fala de Gisele na TV era o momento que sua mãe tinha de confirmar que seria verdade a mentira que contara para si mesma durante muito tempo, e que ela seria a única a poder dizer: “fui a única a acreditar que ela jamais se esqueceria de nós”.

 

Até que a apresentadora pede que Gisele conte sobre quem é seu solo firme, e, prontamente, ela olha para a câmera, como quem olha para os olhos da mãe, e diz: “Meu solo, minha base, quem me fez quem sou hoje, vai minha gratidão eterna, minha dívida eterna, tenho...”

 

Na casa de Dona Marília, acaba a luz no momento, e ela lembra que não teve como pagar a luz, mas continuou na certeza de que sua tão amada filha havia lembrado da mãe. Apenas uma lembrança era o que sua mãe desejava.

 

Seus irmãos não assistiam a programa nenhum, seus tempos eram totalmente dedicados a trabalhar em subemprego para poder comer. E, como o povo da região só se via quando era festividade, demorou um bom tempo para que a fofoca se alastrasse e chegasse aos ouvidos de Dona Marília.

 

Sentada na cadeira de balanço, do lado de fora de seu casebre, ela vê um homem estranho chegar, chamando pelo seu nome, ele vinha andando sozinho, como quem sabe para onde ir, mas sem nenhuma mochila para dizer que está viajando. Este homem se senta ao chão, ao lado de Dona Marília, e, conversando com ela sobre a vida, ambos começam a contemplar o horizonte.

 

Ele se apresentou como Sr. José. Mas de onde? Qual família?

 

O que isso realmente importava para Dona Marília? Ele estava ali, ao seu lado, conversando com ela como há muito tempo não fazia. Abandonada pelos filhos, esperança segura por um fio de eletricidade, ter alguém para conversar de verdade era luz real em sua vida.

 

Até que ambos ficaram em silêncio, e Sr. José, mostrando o campo e algumas árvores, perguntou com qual árvore ela acha que se parecia. Apontando para uma mostardeira, disse: “Aquela ali”. Sr. José pergunta o por quê, como quem sabe, mas gostaria de ouvi-la dizer. E Dona Marília responde como quem teve a grande oportunidade na vida de falar de si mesma e alguém ter realmente interesse em ouvir.

 

“Vejo aquela árvore grande e forte, as pessoas se aproximam dela apenas para usar sua sombra, depois vão embora. Os pássaros fazem seus ninhos, mas pássaros voam. Ela continua crescendo, forte, suportando as estações, mas fica para mim uma pergunta: até quando ela viverá? E é nisso que se resume sua vida?” — disse Dona Marília.

 

Sr. José faz uma pergunta que lhe corta o coração e a faz refletir: “E suas raízes, onde estão firmadas? Quem lhe dá suprimento? Quem mantém suas folhas verdes e seu crescimento para que outros possam encontrar na árvore um refrigério, momentos memoráveis na vida, e pássaros poderem encontrar como um melhor lugar para estabelecerem seus lares, onde, mesmo voando, sempre sabem para onde voltar?”

 

Dona Marília lembrou da pergunta feita à filha no programa de televisão, e sua expectativa era que a filha dissesse que ela era seu solo, seu chão, seu alicerce, mas, e o de Dona Marília, quem era? Aquelas perguntas feriram o profundo de sua alma, uma vez que sua história, de tão dolorida, foi esquecida, e seu olhar foi sempre movido para suas necessidades, achando que ela mesma poderia resolver.

 

Sr. José, depois do café, rumou embora e sumiu no horizonte, enquanto Dona Marília, virava e mexia, pensava, como quem refletia, olhando para aquela mesma árvore, quem a mantinha de pé?

 

No dia seguinte, Dona Marília amanheceu e viu um casal chegar e ali se assentar com as crianças e, decidindo se aproximar, foi caminhando vagarosamente, em seus passos de quem carrega o mundo nas costas, chegando humildemente, pergunta ao novo casal que acabara de chegar à região: “O que vocês mais estão gostando do lugar?”

 

O casal convidou a senhorinha simpática para se juntar a eles no piquenique, enquanto eles contavam que foi exatamente aquela árvore que fez como que eles comprassem o terreno e reformassem a casa, para que a família pudesse viver a liberdade do campo, porque a cidade grande e os sonhos grandes haviam roubado o coração e a saúde deles, e agora estavam aprendendo a dar valor a momentos como aquele de olhar a criação e contemplar, ter momento para apreciar e ser grato, mesmo pelo pouco. Conversaram sobre Deus e a criação.

Como contextos podem ser pesados para qualquer um, e a dor de cada um não é um ringue de competições, mas que conversar com outros alivia dores, e o olhar ser direcionado para outro lugar.

 

Eles acompanharam Dona Marília de volta para casa, onde seus filhos estavam lhe aguardando para contar a notícia da entrevista de Gisele. Eles estavam tomando todo cuidado para que a mãe não passasse mal e morresse de desgosto ou decepção.

 

Quando, depois de todos os preparativos, lançam a notícia de que Gisele anunciou publicamente uma história que ela criara juntamente com o presidente do clube, que a adotou, para confirmar que ela era filha dele, ela também anunciara seu casamento com um empresário milionário estrangeiro, onde iria para fora do país para não mais voltar, Dona Marília fica sabendo que, para Gisele, o solo, a base e o fundamento dela foi seu pai (o presidente), e Dona Marília, lamentando, diz: ela tem o que todo ídolo tem, raízes que não se sustentam de verdade.

 

Aquela fala surpreende a todos, não apenas por sua resposta, mas pela forma segura, tranquila que ela afirma, onde, mesmo lamentando, a única coisa que a leva a fazer é perguntar: “E qual é nosso solo, onde fincamos nossas raízes?”

 

Dona Marília fala do Sr. José para os novos vizinhos e filhos, mas ninguém sabe quem ele é e de onde veio. O casal de vizinhos suspeita de alguém, mas decide não falar nada naquele momento. E passam a visitar Dona Marília periodicamente, como quem a adotou como mãe.

Aquilo tudo mudou Dona Marília, mesmo sem que ela conseguisse explicar direito o que e como foi, mas sua esperança não estava mais em Gisele, e ela não andava mais como quem carrega o amargor da vida, consegue ser grata por pequenas bênçãos, e os outros filhos também começaram a viver essa transformação.

 

As tempestades vieram, tanto para Dona Marília, filhos e vizinhos, como para Gisele, no outro lado do mundo. Dona Marília teve uma nova vida, e todos que a circundavam experimentavam a vida que transbordava através dela, e, na última tempestade da vida, uma doença lhe acometera, ao passo que seu corpo, já não franzino, mesmo tendo lutado muito, não resistiu e morreu.

 

Ali no sepultamento, estava toda a cidade do interior, que viveu à sombra daquela boa e agradável árvore, famílias que pegaram de seus ensinos de sabedoria para montarem seus “ninhos”, e uma menina franzina, que destoava de tudo, parecia uma mendiga, que tinha ao seu lado um homem que lhe ajudava, passando a mão carinhosamente em sua cabeça, como lhe confortando.

 

E um dos filhos de Dona Marília, o mais velho, João, reconhece-a, fixa os olhos na menina e vai em direção a ela. Aquela menina se recolhe atrás do homem que estava com ela, pedindo ajuda, como quem tem medo do que pode acontecer: “Gabriel, me esconde, este é meu irmão, que lhe falei, tenho medo de que ele me bata aqui na frente dos outros e me escorrace daqui.”, e João, chegando mais próximo, cumprimenta Gabriel com olhar educado e pergunta afetuosamente, de braços abertos: “Gisele? É você?”

 

Ela fica espantada com aquele gesto, pois esperava que todos fossem rejeitá-la, agredi-la ou dizer: bem-feito!

 

Gisele o abraçou chorando, e todos os irmãos se aproximaram e a acolheram. Lógico que alguns vizinhos cochichavam uns com os outros, falando tudo quanto o que ela imaginava que iriam falar, mas um pássaro voltou para o lar, precisando ter suas asas cuidadas, por quem verdadeiramente a amava.

 

Gisele contou toda a história, tudo pelo que passou, as escolhas e enganos, o que acreditava viver, mas, quando sofreu com uma doença, todo seu mundo ruiu, aquela árvore teve sua raiz ceifada, desabando ao chão. Se não fosse por Gabriel, um segurança que estava sempre ao seu lado, amando-a em silêncio, cuidando e zelando por ela, mesmo quando ela o desprezava, o esnobava, ele usou de seu cargo e acessibilidade para guardar os documentos dela, mesmo quando ela nem achava necessário isso, guardou algumas roupas e a acolheu, lhe dando a segurança, o abrigo, o colo e a possibilidade de encontrar sua verdadeira base.

 

E foi no retorno que soube sobre o falecimento de sua mãe. O tanto que ela gostaria de ter pedido perdão. E João lhe contou o quanto sua mãe já a havia perdoado há muito tempo, e tudo que ela desejava era que Gisele estivesse bem e em segurança, que tivesse alguém, como foi Sr. José na vida dela.

 

E João, conversando com Gabriel, diz: “Não parece injusto que algumas pessoas usufruam o melhor da árvore de alguém, enquanto outros apenas recolhem as lenhas?”

 

E Gabriel responde: “Cada tempo tem sua beleza, e a pessoa capaz de extrair do outro ou suprir ao outro para que haja vida, a pergunta que fica é: vida em quem?”

 

Gisele nasceu novamente, uma nova vida onde ela pôde perceber o caminho por entre as árvores, reconhecer quem sustenta suas raízes que ninguém pode cortar, e passou a beleza da criação, também ter tempo para contemplar. Em sua nova casa, nem tão alta, nem tão baixa, uma mostardeira plantou e regou, para sempre lembrar, qual seu verdadeiro lar.

 

 

Amanda Moura

Membro da Academia Brasileira de História e Literatura