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DE HISTÓRIA E LITERATURA
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Artigos Acadêmicos24 de fevereiro de 2026

A Leitora do Tempo: Propaganda para uma Nova Vida no Brasil

Anapuena Havena

Era uma manhã ensolarada de setembro de 1890, e cedo me destinei à Rua do Ouvidor. No dia anterior, um recado da perfumaria me chegara, avisando sobre uma nova fragrância vinda de Paris. Demorei-me mais do que o esperado, pois, ao passar em frente à chapelaria — que ficava antes da perfumaria —, um chapéu de seda exposto na vitrine roubou-me a atenção. Assim, voltava para casa com dois pacotes nas mãos.

 

Ao me aproximar do portão de entrada da minha residência, avistei no chão um papel que me despertou curiosidade e, confesso, até mesmo me causou boa impressão.

 

Peguei-o. Curiosa, entrei rapidamente em casa, já soltando os pacotes na mesa de apoio da sala. Sentei-me na cadeira e examinei o papel com atenção.

 

— Marieta! — chamei a nova funcionária.

 

— Em que posso ser útil, senhora? — respondeu a mulher com seu sotaque carregado, ao se apresentar na sala.

 

— Faça a gentileza de traduzir estas palavras que pouco consigo entender. Acredito que estejam escritas em italiano — falei, mostrando-lhe o papel em minhas mãos.

 

— O papel está mesmo escrito em italiano. Onde a senhora conseguiu isso? — perguntou, surpresa, ao colocar os olhos nele.

 

— Encontrei no chão, perto da entrada de casa. Fiquei curiosa com a gravura e com as belas letras do cabeçalho; parece propaganda de viagem. Veja que navio bonito! Consegui compreender algumas palavras: América, clima tropical, castelo… Penso que seja um convite para uma viagem dos sonhos. — Entreguei-lhe o papel.

 

Antes de tomá-lo, Marieta limpou as mãos no avental. Conferiu-o por alguns instantes, calada. Depois falou em tom de seriedade:

 

— A senhora acertou quanto a ser uma viagem e quanto a parecer ser a viagem dos sonhos, ou melhor, para a terra dos sonhos. Porém, isso não passa de uma ilusão! 

 

— Por que diz isso, Marieta? — perguntei, surpresa com a reação dela.

 

— Veja o que diz neste panfleto:

 

“Na América

Terras no Brasil para os Italianos

 

Navios partem todas as semanas

do Porto de Gênova.

 

Venham construir os seus sonhos com a família.

 

Um país de oportunidades.

Clima tropical, vida em abundância.

Riquezas minerais.

No Brasil, vocês podem ter o seu próprio castelo.

O governo dá terras e utensílios a todos.”

 

— Veja, senhora, trata-se de uma viagem. Uma viagem saindo da Itália para o Brasil… mas está longe de ser um sonho.

 

Escutar aquelas palavras encheu-me de frustração e percebi seu efeito imediato naquela italiana. Como uma campanha de governo poderia prometer o que jamais poderia oferecer?

 

— Ora, mas isso é um disparate! — murmurei, indignada. — Conhece algum italiano que tenha construído um castelo aqui, Marieta? Aliás, tínhamos um imperador até pouco tempo atrás e, no Brasil, nem a monarquia teve seu castelo! Agora quer a República cometer mais esta atrocidade, mentindo para alcançar seus objetivos? Esse novo regime não está satisfeito em enganar os brasileiros; quer enganar também o povo de fora? 

 

— Nunca vi castelo no Brasil. E para os italianos, o governo não forneceu nem castelo nem terra. O que se encontra aqui é muito trabalho nas lavouras de café, e muitos fazendeiros sequer acolhem os trabalhadores como deveriam. Para nos trazerem ao Brasil, foi prometida casa — o mínimo para receber uma família — e, quando chegamos, encontramos habitações em péssimas condições nas fazendas de café. O ganho é pouco, e até a passagem de navio é descontada dos salários dos trabalhadores. E nós, imigrantes, nada podemos fazer, pois tudo o que tínhamos foi investido no sonho de um recomeço em uma terra de oportunidades.

 

— E o governo ainda tem coragem de colocar no papel que esses imigrantes encontrarão alguma facilidade nesta terra? Quanta falta de honestidade! Mal nos livramos da escravidão e parece que já buscam uma nova forma de exploração! 

 

— Despedimo-nos de nossa terra, de nossos parentes, e enchemos nossas bagagens de esperança. Mas a esperança foi roubada logo na chegada… — suspirou — Depois da viagem, que durou cerca de cinquenta dias, a maioria de nós teve ainda de enfrentar dias de viagem a lombo de burro! Famílias inteiras, crianças cansadas e com fome… Logo percebemos que jamais teríamos o que nos fora prometido. Não posso dizer que a vida no Brasil esteja sendo fácil para o meu povo. Tenho sorte de ter trabalho aqui, na casa da senhora, mas não posso deixar de me entristecer com a condição dos meus familiares e da maioria dos meus conterrâneos. 

 

— Nosso país é uma boa terra, mas, infelizmente, não estamos em um bom momento. Muitas mudanças aconteceram rápido demais e, infelizmente, não foram boas. Sinto muito pela frustração que seu povo encontrou aqui.

 

— A Itália também não passa por um bom momento. Não é à toa que tantas famílias acreditaram nas promessas desse panfleto, largando tudo o que tinham em busca de melhoria. Sei que um castelo será difícil construir, mas espero poder, ao menos, ter uma terra para levantar uma casa com horta e pomar.

 

— Deseja um lugar para plantar? 

 

— Sinto falta dos meus temperos no quintal.

 

— Plantava temperos em casa?

 

— Todo o necessário para uma boa refeição, senhora. Não entendo como vocês não têm o hábito de manter em casa o que precisam para cozinhar: uma horta com verduras, legumes e ervas, tudo colhido na hora, sempre fresquinhos.

 

— Talvez porque comprar na feira seja tão fácil. Mas, agora que falou, fez-me refletir sobre a comodidade de já tê-los em casa.

 

— Se me der permissão, posso fazer um pequeno plantio, coisa pouca, mas que dará sabor especial às comidas. Posso arrumar mudas com meus familiares na fazenda. Eles trouxeram algumas sementes da Itália.

 

— Não me diga que trouxeram sementes na mala?

 

— Sementes de tomate, rúcula e manjericão, e algumas estacas de videira, alecrim e orégano. Muitos trouxeram até a massa-mãe do nosso pão. Na bagagem não cabe muita coisa; por isso tivemos de escolher bem o que trazer: as coisas mais importantes. Comida, para nós, não é apenas necessidade do corpo, senhora. Comer é uma verdadeira celebração — falou animada. — Todo italiano aprecia uma boa comida e, mais ainda, valoriza uma reunião em torno de uma mesa. Uma grande alegria! — explicou a mulher, parecendo esquecer o sentimento ruim causado pelo panfleto.

 

— Essas reuniões aconteciam com frequência?

 

— Sim, porque somos um povo muito unido e alegre. Gostamos de nos reunir em mesa farta e com música animada. Nas fazendas, nosso povo continua a celebrar. Como a senhora sabe, as dificuldades aqui são grandes, a saudade de casa aperta… e esses momentos aliviam a dor, pois nos trazem a doce lembrança de casa. Uma boa comida alegra qualquer coração!

 

— Vê-la falar tão animadamente de comida aguçou meu apetite! 

 

— Ah, quando a senhora provar uma receita nossa… Se permitir, posso preparar uma para o jantar de hoje.

 

— Eu adoraria, Marieta. O que pretende fazer? Temos todos os ingredientes?

 

— Acho que temos o necessário em casa. Posso fazer um nhoque, polenta ou… à escolha da senhora.

 

— Deixo a escolha em suas mãos. Nunca ouvi falar nessas comidas, mas parecem saborosas.

 

— A senhora vai gostar e ouso dizer que até repetirá o prato. Agora, se me permite, preciso me apressar para não atrasar o jantar. Quando o patrão chegar, o jantar deverá estar à mesa.

 

E, antes que ela deixasse a sala, falei:

 

— Marieta…

 

Ela me olhou, atenta.

 

— Espero que um dia você e sua família encontrem felicidade no nosso Brasil. A maioria dos brasileiros também está nessa busca, que parece não ter fim. Que tenhamos esperança por dias melhores.

 

A italiana, abrindo um simpático sorriso, respondeu:

 

— Por ora, as dificuldades podem ser esquecidas, senhora. Teremos um autêntico jantar italiano esta noite! — vibrou.

 

— Então, só posso desejar que todos os brasileiros tenham a oportunidade de degustar essa culinária — respondi, devolvendo-lhe o sorriso.

 

Olhei para o panfleto em cima da mesa, e pensei: 

 

Que ao menos nossa terra bem receba as sementes que os italianos trouxeram e, assim como as sementes, que essas pessoas possam florescer em sua nova terra. 

 

Nota: Neste texto, foi apresentada a transcrição de panfleto de incentivo à imigração que circulou na Itália em 1890.

 

 

Anapuena Havena

Membro Fundadora da Academia Brasileira de História e Literatura