
A Leitora do Tempo — Preparativos para O Guarani, de Carlos Gomes
Anapuena Havena
Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1870
Adormecera na véspera com a mesma ansiedade com que despertara. Não era para menos: dentro de poucas horas teria lugar um dos acontecimentos mais aguardados da Corte, assunto que parecia ocupar a mente de toda a cidade — exceto, ao que tudo indicava, a de meu marido.
— Será que este vestido está mesmo adequado? — perguntei, observando-me diante do espelho.
Sentado na poltrona junto à janela, ele levantou os olhos do jornal e me examinou com espanto.
— Aonde pretende ir vestida assim a esta hora da manhã?
— Estou apenas experimentando o vestido, querido. Não o usarei agora. É para esta noite.
— Para esta noite? — repetiu, surpreso.
— Não me diga que se esqueceu de nosso compromisso!
— Tenha a bondade de refrescar-me a memória, pois confesso que não consigo pensar em compromisso algum.
— Hoje terá lugar, no Teatro Lírico Fluminense, a primeira representação de O Guarani, de Carlos Gomes, no Brasil.
— É verdade! E no dia em que celebramos o natalício do Imperador!
— Vejo que sua memória enfim despertou — respondi, divertida.
— Como poderia esquecer? A cidade inteira fala nisso.
— E, no entanto, o meu marido se esqueceu.
— Foi apenas um pequeno lapso, querida. Pegou-me desprevenido enquanto lia. Mas é claro que minha senhora jamais me deixaria esquecer.
— Não deixaria mesmo! Imagine: um compositor brasileiro transformar o romance de José de Alencar em ópera e conquistar os palcos da Itália!
— Li que Carlos Gomes foi agraciado com o hábito da Coroa da Itália, como sinal de apreço por suas composições musicais.
— Ora, não sabia desse acontecimento! Fico imensamente feliz ao ver um talento nosso receber tamanho reconhecimento no estrangeiro. Dom Pedro II fez muito bem em apoiar sua ida à Europa.
— E Carlos Gomes soube honrar esse apoio.
— Imagino o orgulho do Imperador ao ver a ópera estrear no Brasil justamente no dia de seu aniversário.
— Para Sua Majestade, há de ser um belíssimo preito de gratidão.
— Sabe o que mais me fascina?
— O quê?
— Pensar que Peri e Ceci, nascidos nas páginas de José de Alencar, ganharão vida no palco e cantarão em italiano. Consegue imaginar a cena?
— Prefiro não imaginar. Deixemos que Carlos Gomes nos surpreenda esta noite. A minha senhora leu o romance?
— Mas é claro! O Guarani é um dos mais belos romances de nossa literatura nacional. Estou ansiosa para ver aquela história de amor transformada em música.
— Creio que esta noite será emocionante também para José de Alencar.
— E para todos nós. Carlos Gomes levou um romance brasileiro ao palco do Teatro alla Scala. Agora regressa consagrado, para ser celebrado aqui, em sua própria terra.
Voltei-me para o espelho. Sobre a penteadeira, ao lado das luvas e do leque, estavam duas fitas de veludo: uma azul e outra cor de vinho. Experimentei cada uma junto ao pescoço.
— Bem… qual delas devo usar?
— Minha querida, qualquer uma lhe ficará bem. Com uma ou outra, estará deslumbrante. Não entendo o motivo de tanta preocupação. Ainda é manhã, e já pensa no traje da noite!
— Como não me preocupar? Celebraremos o natalício de nosso Imperador com a obra de um músico brasileiro aclamado em Milão, nascida de um dos grandes romances de nossa literatura. Esta noite será memorável! E desejo estar mesmo deslumbrante para a ocasião.
Meu marido sorriu, dobrou o jornal e o colocou sobre a mesa.
— Você tem razão… Pelo visto, eu também deveria começar a pensar em meu traje.
Voltei os olhos para o espelho, ainda indecisa entre as duas fitas.
E você, cara leitora, já ouviu falar de Carlos Gomes? Então escolha seu vestido e cuide de não se atrasar. Esta noite, a cortina do Teatro Lírico Fluminense se abrirá para O Guarani.
Em nosso próximo encontro, estaremos lá.
Anapuena Havena
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