
A Leitora do Tempo: Notícias sobre a Seca no Ceará – Julho de 1877
Anapuena Havena
Rio de Janeiro, 10 de julho de 1877
As primeiras horas do meu dia seguem como um ritual. Na cidade, não há galos a nos arrancar do sono, como nas fazendas do interior; ainda assim, os pássaros se encarregam de anunciar o nascimento da manhã com seu canto festivo.
Levanto-me da cama, troco a roupa, ajeito os cabelos diante do espelho e, enquanto termino de me aprontar, meu marido também se prepara para o trabalho. É nessa hora que nossos filhos costumam entrar no quarto, ainda sonolentos, para nos dar bom dia. Seguimos juntos para a sala de jantar, onde o café da manhã já nos espera.
Antes de sair, meu esposo tem o hábito de se inteirar das notícias publicadas nos jornais. Creio que o faz, em parte, para se manter informado; em parte, para demonstrar aos seus amigos e clientes que nenhum acontecimento lhe escapa. Acompanho-o na leitura, embora meus olhos quase sempre procurem a seção dos folhetins literários. No momento, acompanho A Cadeia Fatal, de E. Daudet, publicada no folhetim da Gazeta de Notícias.
Naquela manhã, porém, não cheguei ao folhetim. Detive-me em uma notícia publicada logo acima daquela seção e dali não consegui desviar o olhar.
— Ah, querido... como são tristes as notícias do Ceará! — lamentei.
Meu marido, sentado na cadeira à minha frente, ergueu os olhos do jornal que tinha nas mãos.
— O que aconteceu?
— A seca anda a castigar aquela terra.
— Li algumas notícias sobre a seca no "Norte". O que diz o jornal de hoje acerca disso? — interessou-se pelo assunto.
— Escute o que traz o jornal:
“Continuam bastante contristadoras as notícias do Ceará. Eis vários extratos de correspondências do interior da província, publicados no Cearense:
Quixadá, 19 de junho. As circunstâncias do sertão vão-se agravando cada vez mais: já se juntou à fome a nudez quase adâmica e já a doença vai se desenvolvendo e fazendo vítimas.
Vm. não pode fazer ideia da miséria que assola e passa por aqui. Diariamente se desenvolvem a nossos olhos os quadros mais horripilantes e capazes de fazer cortar o coração.”
Parei por um instante. Não esperava iniciar meu dia com uma notícia tão sofrida. Meu marido me olhava atentamente, ansioso pelo restante da informação.
Continuei:
— “Não se pode descrever. Em todos os caminhos observa-se uma procissão contínua. Só em uma das estradas que vem do centro e passa pela porta do capitão Manuel Luiz, tem transitado até o dia 14 do passado 4.619 emigrantes, contados por aquele senhor! Daqui faça uma ideia do que tem passado pelas outras estradas.
Ah, meu amigo, só pode calcular a grandeza de nossos males quem se acha no teatro dos acontecimentos.”
Baixei o jornal.
— Quatro mil seiscentas e dezenove pessoas por uma única estrada! — repeti. — Para onde estão indo? Que destino os espera? Será que encontrarão algum refúgio? — inquietei-me.
— Isso é realmente espantoso... Não é comum ouvir que tantas famílias abandonem suas terras de uma só vez.
— A carta é do reverendo Scaligero, vigário da freguesia de Quixadá.
As palavras impressas naquele jornal nos abalaram profundamente e pareciam trazer para dentro da sala a poeira das estradas e o sofrimento de pessoas que eu jamais havia visto. Faltaram-nos palavras. Suspeito que, naquele instante, meu esposo também imaginava a penosa cena, assim como eu. Por alguns segundos, ouvimos apenas o tilintar da louça na cozinha e o riso distante das crianças, que brincavam no cômodo ao lado.
— Agora as notícias de Sobral:
“Sobral, 14 de junho. É consternadora a nossa situação. Sobral, que gozava de certo bem-estar geral, ficou paupérrimo.
Creio que ficaram apenas de pé umas oito pessoas, e assim mesmo muito abaladas, com prejuízos consideráveis. O mais fica pobre.
É um horror, como não se faz ideia dos lugares do litoral. O centro da província fica exausto de tudo.”
— É realmente lastimável o que enfrentam nossos irmãos do sertão do Ceará — observou meu esposo, tomando a xícara de café que repousava sobre a mesa.
— Não sei se o senhor se recorda, mas tenho parentes naquela província.
— Não me recordava disso, querida — falou em tom ainda mais preocupado.
— Alguns dos meus antepassados se estabeleceram no sertão do Ceará. Com o passar dos anos, alguns membros da família transferiram-se para a Corte, mas muitos permaneceram por lá. Não consigo deixar de preocupar-me com eles neste momento — falei.
Meu marido pousou a xícara sobre o pires.
— Sua aflição é compreensível, meu amor. Não apenas por seus parentes, mas, diante dessas notícias, qualquer alma sensível há de se apiedar da triste realidade que o povo do Norte, especialmente os cearenses, está enfrentando.
— Tenhamos fé de que tudo ficará bem, mas receio que ainda leremos notícias difíceis.
— Isso é tudo o que traz o jornal?
— Ainda não finalizei, infelizmente. Vejamos se encontramos alguma esperança entre essas linhas.
Continuei a leitura:
— “Pacatuba, 26 de junho. Continuam as caravanas de emigrantes que todos os dias entram nesta vila em busca de pão e roupa. Uns, desconfiados da pequena ração do governo, que é distribuída pela comissão dos socorros desta vila, passam para essa capital; a maior parte aqui fica: trabalham os válidos e as mulheres; os velhos e os meninos enchem as ruas desta pequena vila, esmolando. Nada chega para estes infelizes.”
Parei por um momento. Estava difícil seguir com a leitura. Cada lugar daquela província comunicava seu sofrimento. Aquelas eram informações dolorosas, difíceis de digerir.
— Nada chega... Muitos lerão esse jornal, mas as pessoas que jamais tiveram algum contato com uma seca dificilmente compreendem seus efeitos.
— O que quer dizer?
— O poder de destruição de uma seca é enorme. Quando a chuva falta durante tanto tempo, perde-se a tranquilidade e, pior ainda, a esperança. A água vai se tornando escassa, não há colheita. Falta comida à mesa, falta sustento, o corpo emagrece. O gado, sem pasto, definha e morre de fome. Então, para salvar o pouco que ainda lhes resta, as famílias começam a deixar o sertão.
Meu esposo ouvia atentamente. Ele não conhecia a seca de perto; conhecia apenas o que os jornais comunicavam. Eu, contudo, com raízes também no Ceará, conhecia o quão destruidora podia ser a seca no sertão.
— Ao menos muitos parecem encontrar abrigo em outras localidades.
Balancei a cabeça em negativa.
— Não é uma situação simples de ser resolvida. Essas famílias estavam enraizadas em suas terras. Tinham casa, um pedaço de chão para plantar e criar animais, e parentes morando por perto. É certo que a maioria nunca havia saído da região onde vivia. Para muitos, a vida era aquilo ali; o sertão era o único mundo que conheciam. Agora, muitos estão sem chão, seguindo para terras que lhes são estranhas e dependendo da caridade de desconhecidos, se é que encontrarão alguma ajuda.
Olhei pela janela. Carruagens passavam pela rua, pessoas caminhavam em seu ritmo tranquilo. Tudo parecia perfeitamente normal. No entanto, centenas de léguas ao norte, milhares de pessoas arrastavam-se pelas estradas em busca de sobrevivência.
Suspirei, buscando algum fôlego para continuar. Retomei a leitura:
— “Telha, 5 de junho. Cada vez se torna mais horrorosa a seca. Só Deus nos poderá acudir. Nossos prejuízos são incalculáveis.
Diz-se que já começa a morrer gente de fome no Bom Sucesso, desta freguesia.
Ontem o major Prudente teve participação de ter morrido em Bom Jesus um velho à fome. Era viúvo e deixou oito filhos que estão quase a ter a mesma sorte do pai.”
— Já estão a morrer de fome! — murmurei.
Mas o jornal ainda não terminara.
— “Crato, 14 de junho. Estamos a braços com a seca; a emigração é espantosa; bem me parece que a mortalidade em consequência da fome é onde será maior, porque os recursos falecem e não há onde ir buscá-los.
Ontem deu-se princípio às obras do açude no rio desta cidade, o qual está quase seco, porque as águas são represadas nas nascenças para irrigação.
Aflui tanta gente ao trabalho que sobra, por falta de emprego, entretanto contentam-se com o pingue salário de 400 réis diários, isto à custa deles. Coitados! A tudo se sujeitam a fim de menos sofrerem.
Creio que terei de assistir a cenas bem tristes.
Outra carta da mesma localidade diz: A seca é horrorosa. O Cariri está regurgitando de povo de fora, sobretudo da província da Paraíba.
O número de emigrantes já rivaliza com o dos habitantes daqui. A pouca e escassa colheita do Cariri mal chegaria para a gente do lugar; faça ideia, com a concorrência de comboios e aumento da população, o que será deste pobre povo. Os mantimentos sobem de preço progressivamente.”
Meu marido escutava em silêncio. Aquelas correspondências já não pareciam notícias, mas pedidos de socorro vindos de vários cantos do Ceará.
Prossegui:
— “Jardim, 12 de junho. — Extrato de uma carta do Sr. tenente-coronel Belarmino G. de Sá Roriz:
Vamos mal, e muito mal, com a seca. São tantos os emigrantes que a cada passo nos chegam, que as estradas vivem cheias e as portas das casas amontoadas de esmoleres.
As ruas e os sítios estão como arraiais, com ranchos; confrange o coração ver tantas mulheres e crianças chorarem com fome e pedirem o que comer pelo amor de Deus!
A pobreza da freguesia está quase no mesmo estado e brevemente passará a sofrer os efeitos tóxicos da mucunã e da maniçoba, em que se vai sustentando.”
Cheguei às notícias de Lavras:
— “Lavras, 11 de junho. Não pode ser mais triste e deplorável o estado desta vila.
Há muito que a população daqui se alimenta da mucunã, da carnaúba e do gravatá, sendo que estes já estão aqui extintos, e a mucunã já se torna difícil pela distância onde a vão encontrar.”
Meu esposo franziu o cenho.
— Estão vivendo de plantas do mato? — perguntou incrédulo.
— Do que ainda conseguem encontrar — respondi com tristeza. Continuei:
— “É horrível a nossa situação. Em Lavras já tem morrido gente de fome e continuará a morrer se o governo não se lembrar de nós.
Os emigrantes que por aqui passam apresentam um quadro de angústias e dores. Rotos, descalços, com os pés ensanguentados, chegam aqui quase inanidos. Muitos têm aqui abandonado os filhos nos cueiros, aos quais o vigário tem batizado, servindo de padrinho.”
Pausei a leitura. Pensei nas crianças abandonadas e, instintivamente, meu olhar procurou por meus filhos.
— Crianças estão sendo abandonadas... — disse meu marido, quase num sussurro.
— Deixadas pelos pais porque, talvez, já não tenham forças nem para carregar a si mesmos.
Voltei ao jornal, embora já me doesse a alma continuar.
— “Não há serviço em que o pobre povo possa ganhar um vintém.
Os soldados do destacamento, desde janeiro, não percebem soldo. Felizmente o seu comandante, o capitão Bevilaqua, vai procedendo bem.
Um fenômeno que observamos: os pequizeiros do Araripe estão florando, e muitos pés já carregados de frutos, coisa nunca vista, darem duas vezes no ano! De outubro em diante terá a pobreza esse refrigério salutar, e eu, que há vinte e dois anos não o como, continuarei a aborrecê-lo? Conforme.”
Estavam finalizadas as notícias de Lavras. Restava ainda uma correspondência.
— “São Pedro de Ibiapina, 4 de junho. As poucas chuvas que tivemos do último de abril a 10 de maio, pouco serviram; apenas deram uma ilusória esperança que se acha de todo desvanecida.
Não houve legumes no sertão; não há pasto para os animais, nosso único meio de transporte. Ficaremos ilhados. A emigração só neste termo é atualmente calculada em vinte mil almas e continua aos milhares. Parece que não ficará ninguém no sertão.
Como suprir esse povo cheio de todas as necessidades? Apenas aproveitamos algum legume, parte perdeu-se. O povo que chega trabalha nos brejos, mas como viver sem recursos seis ou oito meses, até que chegue a colheita?
O governo pode fazer celeiro de víveres na Granja, mas como conduzi-los de agosto em diante no espaço de vinte léguas num sertão abrasado?
É grande, é enorme a calamidade!”
Soltei o jornal na mesa. Por alguns instantes, ninguém falou. O semblante do meu marido mostrava o quão impactado ele estava com aquelas notícias. Calado, ele olhou seu relógio de bolso. Estava atrasado para o trabalho.
— Tenho que ir — foi o que ele conseguiu dizer.
Levantou-se, beijou-me a testa e deixou a sala.
Observei-o sair de casa. Pela janela, o vi entrando na carruagem e seguindo para o seu escritório. Voltei-me para dentro de casa. O café ainda estava na mesa. As crianças continuavam a brincar no cômodo ao lado. Minha rotina seguiria a mesma, exceto pelo peso que agora ocupava o meu coração.
Olhei para o jornal. Meus olhos correram pela página e encontraram o folhetim que eu acompanhava. Em qualquer outra manhã, eu teria seguido por aquelas linhas. Naquele dia, porém, não consegui. As notícias do Ceará ocupavam todos os meus pensamentos. Algo me dizia que aquelas notícias eram apenas o começo. Esse pressentimento perturbou-me a paz.
Nota histórica
Esta crônica foi construída a partir de correspondências enviadas do interior da Província do Ceará, publicadas no jornal O Cearense durante a grande seca de 1877 e reproduzidas na Gazeta de Notícias em 10 de julho daquele ano. As correspondências foram reproduzidas a partir do original, com atualização ortográfica para facilitar a leitura contemporânea.
À época, a denominação “Nordeste” ainda não era empregada no sentido regional atualmente adotado. Nos jornais e documentos oficiais do Império, o Ceará e as demais províncias da região eram frequentemente referidos como parte do “Norte” do Brasil ou das “províncias do Norte”. Por essa razão, a presente narrativa preserva a terminologia utilizada no século XIX.
Telha era a antiga denominação do atual município de Iguatu, no Ceará.
Anapuena Havena
Presidente da Academia Brasileira de História e Literatura


