
A Leitora do Tempo: Maria Augusta Generoso Estrella, a primeira médica brasileira
Anapuena Havena
Rio de Janeiro, 20 de fevereiro de 1880
Era noite. Caminhava pela casa à procura de meu esposo. Entrei silenciosamente no escritório e o encontrei sentado no sofá, pensativo, com o olhar perdido em uma pintura de Victor Meirelles pendurada na parede à sua frente.
— Aqui está o senhor! — falei, despertando sua atenção. Estava à sua procura. Não vai dormir agora?
— Sim, estava aqui apenas tentando descansar um pouco a mente.
— Aconteceu algum problema? — perguntei, acomodando-me na poltrona ao lado dele.
— E há algum dia em que eles não acontecem? Esse parece ser o principal ofício de um homem de negócios. — sorriu. — E as crianças? — perguntou em seguida.
— Já devem estar dormindo. Foram para a cama entusiasmadas porque falei que amanhã vamos passear no Jardim Botânico. Estava até pensando que podemos tomar o café da manhã lá. Prepararei uma cesta com comidas e uma toalha.
— Então faremos um piquenique. Será um ótimo momento com as crianças.
Sorri e, depois de um leve suspiro, falei:
— Nossos filhos estão crescendo tão rápido… A impressão que tenho é de que o tempo passa cada dia mais depressa. Desse jeito, logo eles estarão adultos, com suas famílias formadas, e nós sozinhos nesta casa!
— Esse não é o ciclo natural da vida, querida? Mas alegre-se. Quando isso acontecer, teremos a oportunidade de reviver o ciclo com nossos netos.
— É verdade. Só espero estar com vigor suficiente para ainda conseguir correr atrás de crianças. Ou será que terei envelhecido o bastante para não poder cuidar delas?
— Claro que estará bem! E continuará uma belíssima senhora.
— Acabaste de me alertar para algo: tenho de reforçar os cuidados com minha saúde a partir de agora. Afinal, quero ser uma vovó bem disposta! — falei, decidida.
Calei-me por alguns instantes e então lembrei-me do que havia lido na manhã daquele dia:
— Falando no passar do tempo, parece que foi ontem que Maria Augusta foi estudar medicina em Nova York... mas já se passaram cinco anos! Lembra-se disso?
— Claro, todos os jornais noticiaram. Afinal, é mesmo de se admirar que uma moça, tão nova, tenha se apartado de seu pai para estudar no estrangeiro.
— Não apenas isso, querido, ela foi para tornar-se uma médica. E pensar que partiu sendo ainda quase uma menina… tinha apenas quinze anos quando deixou o Brasil. A Gazeta publicou hoje uma carta que ela enviou ao seu amado pai.
— Não quero imaginar a saudade que o Sr. Generoso Estrella sente! São tantos anos longe da filha. Jamais permitiria isso. Filhos meus não vão para longe!
— Fala isso porque eles ainda não têm idade para saberem o que querem. Mas, quando souberem, não poderemos impedi-los de conquistar os próprios sonhos.
— Mas nossos filhos não precisarão ir tão longe para viverem seus sonhos. Que vivam aqui, em nossa terra, perto da família.
— E quem discursava há pouco sobre o ciclo natural da vida? — retorqui com um sorriso.
— Referia-me a vê-los crescer, tornarem-se adultos, e não a viverem em país estranho, sozinhos.
— Ainda bem que o decreto imperial abriu às mulheres o acesso aos cursos superiores no Brasil. E acredito que tenha sido o exemplo de Maria Augusta quem abriu esse caminho para tantas mulheres brasileiras.
— O decreto é do ano passado, então pode ter tido influência do caso dela. Se não estou enganado, é o imperador quem está amparando os estudos da moça.
— Sim. Quando o Sr. Generoso Estrella declarou falência e já não conseguia manter os estudos da filha, Maria Augusta recebeu apoio do imperador. Dom Pedro II passou então a custear sua formação.
— Bom, é inegável que seja uma moça esforçada.
— E muito corajosa também. Sua coragem ainda lhe fará conquistar o diploma de médica e, com ele, o título de primeira médica brasileira.
— Não deve ser fácil para uma jovem morar tão longe, em terra que fala outro idioma, distante dos seus. Mas diga-me, o que diz o jornal sobre ela?
— A Gazeta publicou uma carta que Maria Augusta escreveu ao pai; uma carta tão linda, uma verdadeira demonstração de fé em Deus e do amor que ela dispensa ao Sr. Generoso Estrella. Maria Augusta escreve com tanta doçura e respeito que chega a enternecer o coração. É uma boa e obediente filha. Fala também da gratidão ao imperador por ele custear seus estudos, da saudade que sente do Brasil e dos desejos que possui para quando se formar.
— Então ela pretende voltar?
— Sim, a carta diz que ela deseja regressar ao Brasil para dedicar seus conhecimentos às mulheres brasileiras.
— Isso é realmente muito nobre. Trazer à sua terra o conhecimento que adquiriu e contribuir com o Brasil por meio do seu ofício. Ademais, será muito importante para as mulheres terem os cuidados de uma médica.
— Certamente! Uma doutora com quem nós, mulheres, possamos nos sentir à vontade para tratar nossas questões femininas. Tenha certeza de que serei sua paciente. Inclusive, ela fala que esta é uma missão que acredita ter recebido de Deus: tornar-se médica e cuidar das mulheres. E ainda diz que esteve muito enferma por quase três meses, mas que recebeu grande apoio e cuidado das amigas professoras que moram com ela.
— Por isso jamais permitirei que nossos filhos estudem no exterior, longe de nós. E, se adoecerem, quem cuidará deles?
— Sossegue, querido. Temos cursos superiores no Brasil, e as mulheres já são aceitas neles. Com esse problema provavelmente não terá de lidar.
— Sorte a minha, pois bastam-me os que enfrento diariamente.
— Vamos então ao nosso quarto para que descanse e esteja preparado para os problemas de amanhã — brinquei, levantando-me e oferecendo meu braço como apoio.
— Dispenso os problemas. Amanhã teremos um agradável passeio em família — respondeu, levantando-se e entrelaçando o seu braço ao meu.
Ao passarmos pela sala, peguei em cima da mesa o exemplar da Gazeta de Notícias, onde estava publicada a carta de Maria Augusta. Desejava lê-la novamente antes de dormir.
E você, querida leitora, deseja também conhecer a carta da jovem brasileira que deixou seu país para se tornar a primeira médica do Brasil?
Deixarei aqui sua carta.
Fonte histórica: Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 20 de fevereiro de 1880, p. 3. “A menina Estrella — Doutora brasileira em medicina”.
Série A Leitora do Tempo
Anapuena Havena
Historiadora e pesquisadora
Presidente da Academia Brasileira de História e Literatura

Transcrição:
GAZETA DE NOTICIAS --- Sexta-feira 20 de Fevereiro de 1880
A menina Estrella
DOUTORA BRASILEIRA EM MEDICINA
Depois de havermos lido uma das últimas cartas, datadas de 3 de Janeiro do corrente anno, contendo 17 paginas; que esta talentosa menina escreveu a seu pai, o Sr. Generoso Estrella, fomos levados pelo enthusiasmo do velho amigo que a viu ainda na infância fazer progressos admiráveis no Collegio Brazileiro, das Laranjeiras, a pedir-lhe o obsequio de nos permittir a publicação de alguns trechos d’essa interessante carta, nos quaes encontramos o amor desenvolvido de filha dedicada á seu pai, á sua religião, aos seus aturados estudos scientificos, ás suas amigas, e finalmente á sua adorada patria, o Brazil. Eil-os.
“Papai. — Em primeiro logar agradeço a Deus e a Nossa Senhora das Dores, minha madrinha de baptismo, terem-me salvado a vida da grave molestia que tanto mortificou-me perto de tres mezes, assim como os progressos que tenho feito nos meus estudos, pois, sem o auxílio da Divina Providência, não alcançaria por certo o que tanto almejava; devo também muito ás minhas queridas amigas e professoras, doutoras Clemence Losier e Jennie Losier, com as quaes tenho a felicidade de morar, e que envidaram todos os esforços da sciencia para salvarem-me, e os carinhos e attenções da mais desvelada mãe, para aliviarem meus soffrimentos e dores.
Sobre os progressos de meus estudos ainda muito devo a estas excellentes senhoras. Além da minha força de vontade, dedicação e perseverança ellas têm sido incansáveis em explicar as minhas lições todas as noites para no dia seguinte dal-as com perfeição na academia, assim como fazendo-me praticar junto com ellas no hospital das mulheres, pertencente á nossa mesma academia no seu consultório e na sua clínica particular, que é immensa.
Já vê o meu querido papai, que com tão boas e dedicadas professoras, eu não podia deixar de aprender e de fazer os progressos que ellas dizem ter feito em tão pouco tempo. Sei que meu papai tem derramado copiosas lágrimas por meu respeito, rogando á Deus pela minha vida; saúde. oh!sim... Deus pela sua bondade misericordiosa ouvir as suas preces porque sabe o quanto me ama e o bem coração que tem não só para mim como para todos aquelles que recorrem á sua bondade, por cuja causa tão contrariado tem sido em todos os seus negocios até perder tudo quanto possuía.
Porém Deus é grande e bem pai e n’elle confio a sciencia que por sua inspiração e mandado abracei, para em qualquer parte do mundo, com preferencia no meu caro Brazil, ganhar o pão quotidiano para mim e para o meu papai, a quem tudo devo até ao sacrifício; dando-me sempre o que póde para junto á mesada que recebo do nosso magnanimo Imperador, a quem Deus dê muitos annos de vida e saude e á boa Imperatriz, poder viver confortavel e satisfeita nos meus estudos, os quaes talvez não pudesse superar, se não tivesse um tão bom e carinhoso pai, que mesmo de longe não tem cessado com suas expressões amigaveis, de convencer-me quanto será grandiosa a alta missão que terei de desempenhar na sociedade, se felizmente vencer a campanha da sciencia, em cujas fileiras alistei-me como simples voluntaria. Os seus bons conselhos e a animação que toda a imprensa do Brazil tem-me dispensado em seus lisongeiros artigos e o assiduo cuidado com que as minhas amigas e professoras têm guiado minha fraca intelligencia, deram em resultado ter hoje a satisfação de participar-lhe que muito breve está a chegar o dia em que poderei dizer que venci a campanha da sciencia a que me tenho dedicado, quero dizer venci a parte mais difficil, porque o estudo da medicina nunca tem fim.
Peço licença para dizer ao meu pai e não leve isso a mal, porque não o digo com orgulho, mas sim com satisfação, que o general quando vence o campo da batalha é a custo do sangue dos seus soldados e dos cadaveres que ao mesmo campo deixa inteiriçados.
A sua filhinha vencerá o campo da sciencia medica somente á custa dos seus arduos estudos, dedicação e perseverança; além dos dissabores, privações e lagrimas; mas acima de tudo isto, meu querido papai, ainda me resta dizer-lhe que a minha maior satisfação, é poder ser útil ao meu sexo na carreira que abracei, e que ninguem poderá dizer em tempo algum que eu obtive o meu pergaminho de doutora com empenhos ou com dinheiro, porque todos sabem que papai é pobre, e que Sua Magestade o nosso Imperador, é quem tem concorrido desde dezembro de 1877 para a continuação dos meus estudos até finalisal-os e tenho certeza que elle não estará arrependido de haver-me prestado sua alta protecção, pois appliquei-me aos meus estudos, como devia, e tenho sabido honrar sempre com toda dignidade o sexo a que pertenço e a bandeira do meu paiz.
Digo isto com orgulho, ahi estão as professoras medicas com quem moro e os lentes da minha academia que em abono da verdade o podem atesttar.
O papai talvez não faça idéa quanto são árduos os estudos de medicina, sobretudo para uma mulher.
Como é que tão criança me animei a separar-me para tão longe do meu extremoso pai, da minha querida pátria, das minhas amigas de infância, das minhas boas mestras?
Agora é que admiro como tive tal resignação a coragem. Isto não foi senão o poder de Deus que dizia ao meu coração: Vai minha filha com a minha benção. eu te ordeno; teu bom pai já por mim está disposto a separar-se de ti - segue ao teu futuro.
Creio papai que foi o grande poder de Deus que nos separou, causando a admiração de todos que nos conheciam e que classificavam tolice a minha resolução de estudar medicina nos Estados-Unidos. Elles não acreditaram que nos pudessemos separar e contra sua expectativa nos separamos; estudei, e mui breve hei de ser doutora em medicina!... Sim esse honrado título me caberá com justiça á custa de meus estudos, e terei então orgulho de poder exercer a nobre e humanitaria missão que Deus por sua infinita bondade me confiou.
Papai, já lá vão alguns annos que tive o prazer de o vêr aqui ao meu lado, assistindo à minha entrada na Academia de Medicina para senhoras, que bem difficultosa foi, em consequencia da minha pouca idade; hoje esse prazer requintaria, se da mesma fórma podesse assistir á collação do meu gráo, que como já lhe disse, espero em Deus e em Nossa Senhora, terá logar no mez de abril proximo. Oh! como seria feliz n’esse dia, se lhe podesse dar o meu primeiro abraço de satisfação e receber a sua benção para que seja tão feliz em meus curativos na minha terra, como tenho sido aqui constantemente: a festa para o acto das moças que tomam o gráu não é feita na Academia por não poder conter o numero das pessoas de amisade e dos curiosos que costumam a concorrer n’estas occasiões, ella tem logar quasi sempre em um immenso salão particular onde se dão grandes concertos musicaes; é uma festa muito bonita; se papai, porém, não poder vir, eu ficarei muito triste, mas não terei remedio senão tomar o gráu, caso me dispensem a idade requerida pelos estatutos, e ficar aqui praticando junto das minhas amigas e professoras até que papai possa vir buscar-me. Mas meu Deus! como ardentemente dezejo ir para o meu Brazil! Papai, eu já tenho feito o meu itinerario, são os meus sonhos dourados: sei porém que os não realizo, porque tanto não mereço a Deus! entretanto sempre os vou revelar.
Depois que eu tomar o meu gráu, quisera ir com papai á Pariz, Londres e Vienna d’Austria, visitar nos hospitaes, as enfermarias das mulheres, para tomar alguns apontamentos, e mesmo assistir a algumas operações difficultosas, demorando-nos 15 dias em cada um d’esses logares: depois irmos a Lisboa, onde tambem visitaria as enfermarias das mulheres, e ao mesmo tempo vermos o Sr. Barão de Mendonça e sua amavel familia a quem devemos tantas attenções e obsequios, quando estivemos em Portugal. Seguiremos depois para a provincia da Bahia a visitarmos os seus amigos com os quaes está compromettido a apresentar-me, assim como á distincta sociedade litteraria — Greve Academica, á qual já tenho a honra de pertencer como socia correspondente. Ahi ficariamos uns 8 dias aproveitando o tempo em visitar tambem as enfermarias das mulheres.
E depois de concluido este agradavel e util itinerario, seguiríamos para o nosso querido Rio de Janeiro, minha terra natal que tanto amo e estimo, e tantas saudades d’ella tenho tido. Parece-me que quando chegar o feliz momento de avistar o Corcovado e o lindo Pão de Assucar, não poderei conter as lagrimas de alegria...
Sim, querido papai, não tenho vergonha de dizer-lhe que n’este momento choro de prazer, não só porque o meu coração me diz que bem perto está o dia de tornar a ver a patria, e todas as minhas amigas e amigos de papai, que tambem são meus, como tambem pela satisfação que dou a papai de ter chegado á mais elevada posição que uma senhora poderá desejar, posição que n’este mundo ninguem me poderá tirar, conferindo-me os direitos de ser util aos soffrimentos de meu sexo, como sacerdotiza da medicina. Querido papai, vou agora dizer-lhe quaes são os meus maiores desejos no dia em que eu tiver a felicidade de desembarcar no meu Rio de Janeiro. As primeiras pessoas que eu queria ver e abraçar eram as minhas bóas directoras dos collegios onde estive pensionista, que são: D. Florinda de Oliveira Varejão, Mme. Fernandes de Oliveira, Mme. Gros e sua irmã, assim como todas as minhas professoras e collegas, caso fosse possivel.
Depois irmos a igreja da Candelaria, onde tem a Imagem de Nossa Senhora das Dôres, para fazermos oração e agradecer a Deus e a Mãi Santissima, ter voltado á minha patria na posição que tanto ambicionava, desde tenros annos; ultimado este religioso acto, seguirmos para o palacio de S. Christovão a cumprirmos um dever de profunda gratidão, beijando a mão da nossa boa Imperatriz e offerecer-lhe os meus serviços; agradecendo do fundo da alma a S. M. o Imperador a valiosa protecção que se dignou dispensar-me; de volta do palacio iremos então para a nossa casa, ou para onde provisoriamente tiver determinado a nossa residencia e ahi teremos a honra de receber todas aquellas pessoas que se dignarem visitar-nos. Mas o papai fará o que melhor entender n’estas circumstancias, porque sabe que eu sou e por toda a vida sua obediente filha agradecida, que lhe pede a benção para ser feliz.
MARIA AUGUSTA GENEROSO ESTRELLA.
DOMINGOS A. DE OLIVEIRA


