
A Leitora do Tempo: A Moreninha
Anapuena Havena
Rio de Janeiro, 1885
Estava sentada no sofá, com um livro nas mãos, aguardando ansiosa a chegada de meu marido. Finalmente, ouvi bater à porta. Levantei-me apressada para abri-la.
— Querido, que bom que chegaste! — cumprimentei-o com um beijo. — Estava à tua espera.
Entrelacei meu braço no dele e, conduzindo-o ao sofá, falei:
— Senta-te aqui; preciso tratar contigo de um assunto.
— Pareces ansiosa. Aconteceu alguma coisa? — perguntou ele, assustado.
— Tenho um plano perfeito para estes próximos dias — respondi, sorrindo.
— Se estás com toda essa animação, deve ser um bom plano… ou algo com que eu deva realmente me preocupar — disse ele, com o humor de sempre.
— Iremos à ilha de Paquetá.
— Queres viajar para a ilha?
— Não ficaste animado? Estou certa de que será muito divertido para as crianças.
— Sim, parece-me uma boa ideia. Só não esperava isso agora. Mas por que tiveste essa vontade de repente?
— Estava lendo A Moreninha — respondi, mostrando o livro que repousava sobre a mesa.
— Tinha de vir de alguma de tuas leituras…
— Claro, sou uma mulher informada! — respondi, com um sorriso satisfeito, e continuei: — Interessante é que o autor não diz exatamente em que ilha se passa a história, mas diz-me: que ilha está tão perto da Corte e é tão estimada para passeios de veraneio?
— Não sei.
— Ora, meu marido! Pensa um pouco. Paquetá, claro!
— Esse detalhe fugiu-me à memória. E o que conta esse livro?
— A história começa com quatro jovens amigos que vão passar o feriado de Sant’Ana na ilha e… — olhei para ele com ar de suspense. — O restante não posso contar. Terás de ler para descobrir.
— Ah, querida, sabes bem o quanto sou ocupado. Não tenho tempo para leitura!
— Creio que quinze minutos por dia dedicados aos livros não atrapalhariam a tua rotina. E este é um livro que merece atenção, pois é uma das obras mais célebres de nossa literatura. Joaquim Manuel de Macedo o publicou em 1844, quando tinha apenas vinte e quatro anos, no mesmo ano em que se formou em Medicina. A história tornou-se um grande sucesso e conquistou leitores em todo o país. Interessante, não?
— Certamente.
— E então, gostaste da ideia de irmos a Paquetá?
— O lugar é bonito, tranquilo… As crianças hão de divertir-se muito. Mas pensei em tratar de alguns assuntos da fazenda nesses dias.
— Querido, assuntos da fazenda podem ser resolvidos em outra ocasião. Mas Paquetá nos espera! Aliás, sabias que a ilha foi, durante longo tempo, um lugar muito apreciado pela Corte? Dizem que Dom João VI muito estimava Paquetá e que ali esteve várias vezes. Dizem também que foi ele quem deu à ilha o apelido de Ilha dos Amores. Antes de Petrópolis, Paquetá teve seu lugar como refúgio de verão da Corte.
— E por que isso mudou?
— Com a construção do Palácio Imperial em Petrópolis, os olhares da Corte deixaram o mar e voltaram-se para a serra. O clima serrano, nos meses de verão, é bem mais agradável. Não é por isso que passamos dezembro e janeiro em Petrópolis? O livro mostra justamente a época em que Paquetá era um destino apreciado pela Corte.
Sorri e tornei a pegar o livro.
— Vês? Um romance pode abrir as portas de uma época. Quinze minutos por dia, querido, e já terás muitas páginas lidas. E, claro, terás ainda uma excelente companheira de leitura!
— Prometo que tentarei, querida — respondeu ele, dando-me um beijo na testa antes de deixar a sala.
Tomei aquilo como um avanço.
Agora digo-te, querida leitora: também andas ocupada demais para ler?
Faz-me esse favor: lê A Moreninha e descobre por ti mesma o encanto de uma história que se tornou um dos grandes sucessos da literatura brasileira.
A Leitora do Tempo
Anapuena Havena


