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ACADEMIA BRASILEIRA
DE HISTÓRIA E LITERATURA
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Artigos Acadêmicos06 de março de 2026

A Herança Imaterial que Nos Acompanha

Anapuena Havena - Ciclo de Estudos Memória e Herança

Quando falamos em conhecer nossas raízes, pensamos em nomes, locais e datas, elementos importantes para a criação da nossa árvore genealógica. Mas há também informações que não estão registradas em livros ou documentos, e sim gravadas em quem somos. Elas fazem parte de nós; seguimos repetindo-as e, assim, acabamos ensinando-as aos nossos filhos.

 

Essas informações fazem parte de uma herança invisível, formada por tradições, costumes e valores que são transmitidos de geração em geração e que formam a base da nossa identidade cultural.

 

Portanto, a herança que recebemos vai muito além do nome. Ela está nos costumes que muitas vezes nem percebemos que aprendemos com nossos antepassados e que seguimos repetindo. 

 

Costumes que fazem parte da nossa identidade e estão tão impregnados em nós que nos acompanham onde quer que estejamos.

 

Moro nos Estados Unidos e uma das coisas de que mais sinto falta é da gastronomia brasileira. E, mais ainda, da comida regional. Comer pratos típicos da nossa região parece nos trazer mais perto da nossa terra, da nossa identidade.

 

No Ceará, estado em que nasci, há um prato tradicional chamado cuscuz, que muitas vezes está associado à simplicidade. Hoje, estando distante da minha terra, tem dias em que a saudade aperta tanto que sinto necessidade de comer cuscuz, pois me faz sentir mais perto de casa e acalma o meu coração.

 

Lembro que, quando eu era criança, não entendia por que minha mãe queria jantar cuscuz com leite, se tínhamos tantas outras opções em casa. Eu realmente não entendia. Ela, que passou a infância no sertão, certamente viu seus pais comerem esse prato muitas vezes. Por sua vez, meus avós também viram os pais fazendo o mesmo, pois um dia esse foi um dos poucos alimentos disponíveis naquele sertão.

 

Mas minha mãe tinha opções. Mesmo assim escolhia comer cuscuz tantas vezes, provavelmente porque, para ela, aquele prato não era apenas “cuscuz”, mas uma refeição com sabor de saudade e de doce lembrança.

 

Esse é exatamente o meu sentimento hoje. Um prato que um dia representou escassez para os meus antepassados tornou-se tradição para mim. E meus filhos já reconhecem não apenas o sabor desse prato, feito de massa de milho, mas também o significado que ele carrega. Além disso, o cuscuz se tornou um símbolo de identidade: se alguém perguntar de onde meus filhos são, certamente o prato será citado em algum momento da conversa, como próprio dos nordestinos, e eles ainda complementam: do sertão do Ceará!

 

O mesmo ocorre com a chuva. Moro em um lugar onde a chuva é abundante, mas todas as vezes que a vejo cair do céu, involuntariamente sou tomada por um sentimento imenso de gratidão e felicidade. Isso acontece porque sou de um lugar castigado pela seca, e a chuva no sertão tem um significado diferente: ela traz esperança, paz e felicidade. Esse sentimento não ficou preso ao meu local de origem. Ele permanece em mim e me acompanha onde quer que eu vá. Faz parte da minha memória. 

 

Ou seja, o sentido que atribuímos às coisas também está ligado às nossas raízes: ao que aprendemos com nossos familiares e ao nosso lugar de origem.

 

Proponho hoje uma reflexão sobre as tradições que você carrega e a importância que elas têm para você. Muitos desses costumes podem não fazer mais parte da sua vida hoje, mas tiveram algum impacto na sua formação.

 

O que você recebeu que sabe que não descobriu sozinho? O que não nasceu de uma reflexão própria, mas foi aprendido ao ver seus familiares fazendo? Algo que, por isso, tem um significado especial para você, ainda que talvez não tenha o mesmo sentido para outras pessoas.

 

Cuscuz pode ser uma comida estranha para alguns; para mim, é identidade. Dias chuvosos podem representar problema para algumas pessoas: alagamentos, roupa encharcada, trânsito difícil; enquanto, para mim, chuva sempre significará esperança. 

 

Cada um de nós recebeu uma herança que vai muito além do sobrenome ou de bens materiais. Uma herança imaterial que formou a nossa base e a nossa identidade cultural.

 

 

Anapuena Havena

Historiadora

Presidente da Academia Brasileira de História e Literatura