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ACADEMIA BRASILEIRA
DE HISTÓRIA E LITERATURA
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Artigos Acadêmicos15 de fevereiro de 2026

A Guerra Guaranítica: um episódio no Passo do Jacuí

Elaine dos Santos

Em 2026, o Rio Grande do Sul comemora 400 anos da fundação da primeira Missão Jesuítica, trata-se de São Nicolau, o que ocorreu em 3 de maio de 1626, feito realizado pelo padre Roque Gonzales de Santa Cruz.

 

A História oficial das Missões – pouco a pouco reabilitada, uma vez que há um amplo predomínio de uma “versão” portuguesa que, sob certo aspecto, ocultou os feitos espanhóis em território do estado mais meridional do Brasil – registra que houve um primeiro ciclo missioneiro, que se estendeu entre 1626 e 1638.

 

As Missões, fundadas por padres da Companhia de Jesus, oriundos principalmente do Paraguai, reuniram milhares de indígenas, havendo a introdução da agricultura, da pecuária e, mais especificamente da criação de gado.

 

Bandeirantes paulistas, porém, provocaram a dispersão dos padres, soltaram os rebanhos, porque o seu grande objetivo era o aprisionamento de indígenas para trabalhos forçados no sudeste do Brasil.

 

É interessante notar que, conforme a historiadora Sandra Jatahy Pesavento, seria justamente a pecuária que lançaria as bases para a ocupação do território pelos portugueses. A carne bovina, na forma de charque, serviria para alimentar os homens que trabalhavam nas minas, que despontavam e cresciam em Minas Gerais. Além disso, havia o aproveitamento das mulas para o transporte.

 

Ciente que o gado reproduzia-se solto pelos campos e vinha sendo abatido sem critérios, os jesuítas regressaram ao Rio Grande do Sul a partir de 1687, quando fundaram, paulatinamente, os chamados Sete Povos das Missões: São Francisco de Borja, São Nicolau, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista, São Luiz Gonzaga e Santo Ângelo Custódio.

 

Tau Golin (2014), historiador que se dedica ao estudo dos povos missioneiros, explica que os Sete Povos eram unidades administrativas vinculadas à Província Jesuítica do Paraguai, ou seja, estruturas coloniais sob domínio espanhol, formados por diferentes etnias, mas com predomínio guarani.

 

Em 1750, porém, Espanha e Portugal, as duas Coroas Ibéricas assinaram um novo tratado territorial que atualizava o antigo Tratado de Tordesilhas de 1494. Pelo Tratado de Madri (1750), a Colônia de Sacramento, possessão portuguesa fronteiriça a Buenos Aires, passava às mãos dos espanhóis, por sua vez, os Sete Povos das Missões deveriam tornar-se domínio português.

 

De imediato, os padres rebelaram-se contra a ideia e passaram a atuar em Roma, Madri, Buenos Aires. Os indígenas negavam a deixar as suas casas, a plantação, os cemitérios em que se achavam enterrados os seus mortos. O enfrentamento entre as tropas demarcadoras e os indígenas missioneiros fez-se iminente.

 

Na sequência, teve início o que se denominou Guerra Guaranítica.

 

Incumbido da demarcação das terras e, em seguida, das operações de guerra, pelo lado português encontrava-se o General Gomes Freire de Andrada, que havia sido nomeado, em 1733, governador e capitão geral do Rio de Janeiro. Em decorrência dos eventos no sul da colônia, teve as suas atribuições ampliadas, tornando-se comissário demarcador da Expedição Sul e responsável pelo exército luso-brasileiro que deveria evacuar os missioneiros e promover a tomada dos Sete Povos das Missões.

 

Para cumprir a sua missão no sul, Gomes Freire deslocou-se por terra desde o Rio de Janeiro, o que demandou uma longa jornada, ultrapassando lagos, rios e toda a sorte de obstáculos impostos pela natureza. No interior, organizou-se em Rio Pardo para a viagem até as Missões – antes disso, porém, havia encontrado espanhóis em Castillo Grande para traçar os planos de enfrentamento e a tomada dos Sete Povos.

 

No inverno de 1754, após intensa troca de correspondência entre líderes militares de ambas as bandeiras – espanhola e portuguesa –, Gomes Freire partiu de Rio Pardo, com um grande arsenal de guerra: armas, utensílios, meios de transportes e soldados. A sua intenção era deslocar-se livremente até a região oeste do antigo Continente de São Pedro (hoje, estado do Rio Grande do Sul) e atacar os indígenas missioneiros e os padres jesuítas.

 

Para tal, deveria ultrapassar o rio Jacuí, um dos mais importantes fluxos d’água do território e um dos poucos locais que permitiam a passagem das tropas – durante muitos anos, naquele ponto, o gado cruzou nas águas, até que, em 1849, o então Barão de Caxias determinou a construção de uma ponte para facilitar a travessia.

 

Na outra margem do rio, contudo, no território que, anos mais tarde, comporia o município de Restinga Seca, em que nasci, estavam indígenas missioneiros vindos de São Luiz, São Miguel, entre outros povos, preparados para o combate. Acompanhava-lhes o Padre Tadeu Henis responsável pelo registro das viagens e dos eventuais combates. Aquele ponto ficaria conhecido como Passo do Jacuí.

 

Aconteceram encontros amistosos; registraram-se trocas de presentes; houve tentativas para surpreender os inimigos; existe menção até mesmo a um dia de escambo em que soldados de lados opostos trocaram produtos de interesse pessoal, indo e vindo em um ponto que o rio propiciava travessia a pé (quando com pouca água), sem contar que havia bodegas e prostíbulos tanto às margens portuguesas, quanto em barcaças.

 

O tempo passou, a enchente tomou conta do rio, molhou mantimentos e armas dos portugueses, o rio serenou, seguiram-se visitas amistosas, novas trocas de presentes, até que premido pelas condições impostas pela cheia, pela demora na movimentação das tropas espanholas, Gomes Freire assinou um armistício com os guaranis cerca de dois meses após o encontro dos dois exércitos às margens do rio Jacuí.

 

Com base naquele acordo, os portugueses voltariam para Rio Pardo, em segurança, e toda terra situada naquela margem do rio seguindo até o rio/lago Guaíba ficaria sendo possessão portuguesa. Os guaranis regressariam para as Missões – é bem verdade que estudiosos do segundo ciclo missioneiro asseguram que fazendas de criação de gado estendiam-se por todo o território que incluía as margens do rio Jacuí até os Sete Povos.

 

E assim foi. A Guerra Guaranítica teria o seu término em 1756, quando o grande líder dos indígenas missioneiros, o guerreiro Sepé Tiaraju, tombou morto no atual município de São Gabriel.

 

Este ensaio, além de retomar parcialmente um episódio da História gaúcha, destina-se também a marcar – ou se poderia dizer, confirmar – o marco histórico que registra, pela primeira vez, um importante evento naquela terra que, anos mais tarde, comporia o município de Restinga Seca, região central do Rio Grande do Sul – e que a História oficial, até mesmo do município, insiste olvidar.

 

 

Professora Elaine dos Santos

Doutora em Letras/UFSM

Membro da Academia Brasileira de História e Literatura