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ACADEMIA BRASILEIRA
DE HISTÓRIA E LITERATURA
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Artigos Acadêmicos16 de junho de 2026

A Grande Reforma de Pereira Passos: Uma "Paris Tropical" e Seu Preço em Dor Humana

Gustavo Luís de Aguiar Vasconcellos

Quando se fala de patrimônios materiais históricos, o que nos vem à mente são, no caso europeu, muralhas, castelos, cidades fortificadas e insuperáveis igrejas, tendo sido a maior parte erguida por escravos e servos, que estiveram sob os domínios romano e feudal. Sangue humano jorrou por tão belos cartões postais de que hoje desfrutamos.

 

No Rio de Janeiro, então Distrito Federal, um contexto parecido ocorreu no início do século XX. Naquela época, o  prefeito Francisco Pereira Passos estava determinado a erradicar, do território sob seu mando, doenças de características amazônicas e medievais, como a febre amarela, a peste bubônica e a universalmente presente varíola. O Rio de Janeiro, por aquelas chagas, era tristemente conhecido como"Cidade da Morte".

 

Como havia estudado em Paris, impressionou-se com as obras levadas a cabo pelo Barão Haussmann, que em meados do século XIX revolucionou a arquitetura da capital francesa. Engenheiro civil que era, Pereira Passos estava determinado a fazer do Rio de Janeiro, no seu centro comercial e econômico, uma "Paris dos Trópicos", e livre das enfermidades que a estereotiparam.

 

Assim, além de apoiar o sanitarista Oswaldo Cruz na campanha da vacina obrigatória contra a varíola, fez que a mesma se concentrasse nos cortiços, bem como nos velhos casarões e edifícios coloniais em que a mesma, na maior parte, se difundia, e que eram habitados por antigos escravizados e população majoritariamente proletária. Essas habitações dominavam a paisagem do Centro.

 

Desta forma, Pereira Passos também iniciou uma política de demolição coletiva daquelas construções, que talvez tenha sido a maior remoção em massa da nossa história republicana: cerca de mil e seiscentas foram postas abaixo, para dar lugar a uma urbanização caracterizada por arejadas, limpas e largas Avenidas, como a Central (hoje Avenida Rio Branco), e, no seu âmago, à reforma da Região da Cinelândia, onde foram erguidos, todos num estilo arquitetônico eclético, o Palácio Monroe (estrutura desmontável vencedora de um concurso de pavilhões em Saint-Louis, nos EUA, e que fora aqui remontado em 1906, tendo servido como sede a diversas entidades políticas até sua criminosa demolição, pela ditadura militar, em 1976), o Museu Nacional de Belas Artes (de 1906 a 1908, tendo sido erigido, originalmente, para abrigar a Escola Nacional de Belas Artes, herdeira da Academia Imperial de Belas Artes,  mas que Vargas viria a transformar, em 1937, no efetivo museu, com inspiração no Louvre), o Edifício que abriga a Biblioteca Nacional (de 1905 a 1910, sendo tal a maior biblioteca da América Latina) e o Theatro Municipal (de 1905 a 1909, cujo modelo foi a Ópera Garnier, de Paris, e que se tornou a mais luxuosa Casa de Óperas de toda a América).

 

Além dessas obras, no Rio de Janeiro há muitas outras, que, no conjunto total, realmente a fizeram e fazem uma "Paris dos Trópicos", saneada das ditas enfermidades as áreas atingidas. Por essa época, o Rio de Janeiro deixou a alcunha de "Cidade da Morte" para se tornar a própria "Cidade Maravilhosa".

 

Mas o preço humano foi alto. Os antigos moradores, despejados à força de seus lares pela violência da polícia do Distrito Federal, não tiveram um programa de moradias populares a lhes servir (ou, se tiveram, foi absolutamente insuficiente). A maior parte se viu obrigada a recuar a casas de parentes, ou a engrossar o, até então pequeno, contingente de favelas que iniciava a tomar conta das montanhas ao redor, com a geração de sérios problemas sociais que, infelizmente, perduram até os dias atuais. Até mesmo porque, em muitas dessas comunidades, ainda há surtos das doenças que Pereira Passos e Oswaldo Cruz erradicaram do Centro parisiense de sua metrópole.

 

Se monumentos existem, é para que com eles aprendamos, não apenas cronologia e arquitetura, mas humanismo. O Centro é belíssimo, mas por trás dessa beleza existem histórias de dor, e que não devem ser esquecidas, nem mesmo, se a ele olharmos com esplendor.

 

 

Gustavo Luís de Aguiar Vasconcellos

Membro da Academia Brasileira de História e Literatura